terça-feira, 10 de julho de 2012

Novas Oportunidades, e esta...

Quando ouvi falar em Novas Oportunidades fiquei «naturalmente» indignado - destruir o ensino em si-mesmo ou tornando-o uma inutilidade, como são as Novas Oportunidades, é o caminho para o Fim de um País. Bem..., o Fim já chegou; mais depressa do que pensava - e, as Novas Oportunidades ajudaram muito.
Vejam Sócrates e Relvas, e Armando Vara's. É que as Novas Oportunidades estenderam-se afinal às Universidades - e, vai daí, «os políticos» resolveram entrar nas Novas Oportunidades. Aliás, foram eles que as criaram para si-mesmos. Já há uns tempos que estamos a ser governados pelos Novos Oportunistas - e, digam lá se foram vocês que os escolheram (ainda que os tenham elegido)?
De facto, quem conhecia estes Senhores? Só mesmo os seus amigos; os que os escolheram para os meter à nossa frente para os termos-de-eleger. O resultado é este? Um País e um Povo arruinado; nós os mais velhos já pouco iremos «pagar», mas os nossos filhos e netos irão suportar a nossa estupidez e falta de coragem em afrontar uma bandidagem que há anos estava já bastante bem definida e evidente. Bem..., pelo menos os Novo Oportunistas garantiram o Futuro dos seus filhos e netos; até garantiram que uns milhões de pessoas «desapossadas» de tudo, não só os irão servir «servilmente» como terão de lhes agradecer terem o privilégio de os servir - somos nós os portugueses. Quem diria? A orgulhosa Nação dos 900 anos!

domingo, 8 de julho de 2012

Os compromissos são para se cumprir - disse o Primeiro Ministro

Há alguém que está contra isso? Será que quem colocou tal questão ao Primeiro-Ministro é tonto?
Penso que o Primeiro Ministro só olhou a parte que lhe interessa: os compromissos com as Empresas! Os compromissos para com os cidadãos portugueses, que inclusive continuam a pagar impostos para que devam continuar a ser assumidos pelo Estado para com eles, nem passa pela cabeça do Primeiro Ministro que sejam «compromisso».
Infelizmente, este tipo-de-resposta do Primeiro Ministro, que apenas só colhe o que é relativo aos «outros» e não aquilo que é relativo aos «cidadãos», mostra a Cultura das elites portuguesas - as mesmíssimas que colocaram o País nesta situação. É como se a Culpa fosse dos portugueses, confundindo o Estado e as responsabilidades do Estado como se fossem da responsabilidade dos cidadãos portugueses e, como tal, como se estes tivessem de pagar os compromissos daquele, abdicando dos seus.

A primeira questão que se coloca, é que o Estado não se confunde com os cidadãos - pelos menos em Portugal, isto está muito longe de acontecer. Como diz Medina Carreira, meia dúzia de indivíduos controlam os Partidos e, através destes, o Estado - por isso, o Primeiro Ministro está amarrado ao seu Vice, que no fundo foi quem o pôs lá. Hoje, é mais que evidente que o Estado está em roda-livre - e, para o tornar ainda mais Livre, acabaram com o sistema judicial, manietaram as polícias e, em geral, controlam a Informação (colocando ou não publicidade, ou fazendo encomendas maciças de exemplares para serem distribuídos gratuitamente em repartições públicas, empresas públicas ou em empresas amigas). Alguém conhece o deputado que o representa, a si e à sua região, no Parlamento? Não, não conhece! Mas, dizem que o Parlamento o representa. A realidade mostrar que se representam-se a si-mesmo.
Mas, como é que isso é possível? Porque os portugueses elegem, mas não escolhem quem elegem. Ou seja, os escolhidos são-no pelos que controlam os Partidos, e os eleitores só podem eleger entre os «escolhidos». Resultado: ninguém conhece os «escolhidos» nem os «eleitos» e, pior, o Estado não responde perante os cidadãos.

Foi esta dicotomia entre Estado-Partidos e Cidadãos que conduziu o País ao estado em que está. E como o Estado-Partidos não mudou, a única coisa que preocupa o Primeiro Ministro são os compromissos para com os «outros»; afinal, os compromissos para com os cidadãos não existem em sentido próprio, até porque os cidadãos estão aí para servir o Estado (e os Partidos), e não para este os servir.
A presente atitude do Tribunal Constitucional não altera nada - de certo modo, até é uma atitude irresponsável. O País está efectivamente numa Crise, na qual foi metida pelo Estado. A situação é excepcionalmente difícil; pretender preservar direitos adquiridos nesta fase, é repetir aquilo que a monarquia fez. Ou seja, ou a estrutura política muda ou, de facto, nada mudará - e, isso, porque é preciso atacar os problemas de outra perspectiva, numa perspectiva que nunca levaria o Primeiro Ministro a pensar que a sua afirmação: «os compromissos são para se cumprir», respondia à questão colocada. O Primeiro Ministro «nem Vê» (ainda assim o Tribunal Constitucional vê mais: pelo menos, vê o que está na Lei).








quarta-feira, 20 de junho de 2012

Miguel Sousa Tavares e as energias alternativas

A Energia e, em particular, as energias alternativas andam na «berra» de tão mal faladas como têm sido. Depois do eldorado (dos subsídios a fundo-perdido) em que todos falavam bem delas, seguiu-se um período em que se descobriu que o «rei ia nu».
Eis, que no último Expresso, Miguel Sousa Tavares vem defender as energias alternativas - e a estratégia energética de Sócrates. Como defesa apresenta as políticas de alguns países, como a França, aonde está a ser feita uma drástica diminuição do Nuclear.

É evidente que toda a gente quer energias não poluentes e seguras. Se é esta a questão, então viva a estratégia «de Sócrates» - se é que é dele!
Mas, a questão não é assim tão simples. Tenho um familiar na Noruega; neste país ligam-se os aquecedores - neste caso eléctricos - no início do Outono e desligam-se em meados da Primavera (umas vezes mais cedo, outras mais tarde); durante esse período trabalham continuamente - se tal deixa de acontecer, a habitação torna-se inabitável durante os dois a três dias necessários para voltar a aquecê-la. Ora, durante este período, este familiar gasta, mensalmente, metade do que eu gasto em Portugal com sistema tri-horário, com preocupação em deslocar o maior consumo para horas vazias, só usando ar condicionado muito pontualmente (o que significa cerca de uma a três horas diária no Inverno), etc.
Parece um absurdo, não é?

Pois é! Parece, mas não é.
As energias alternativas, eólica e solar, são caríssimas quando comparadas com o custo médio das energias tradicionais. Por isso, só um louco, ou quem despreza o seu Povo «pagador», poderia querer sustentar a estratégia energética nacional em energias alternativas.
Paralelamente, o mesmo Governo resolveu des-responsabilizar as empresas dos Riscos de Investimento: oferecendo ricas Rendas pelas capacidades instaladas, quer fossem utilizadas ou não (como nas auto-estradas). Isso, associado ao crédito fácil - garantido pelo Estado -, foi ver as potências instaladas a subir por todo o País (sem necessidade real) e o custo dos investimentos a subir (o que poderia ser construído por 100 se o investimento fosse privado, passou a ser construído por 100+? porque quem pagava era o Estado). Resultado: só sobrevivemos, porque não temos um País frio - todavia, só sobrevivemos mesmo, já que a larga maioria da população não consegue ter acesso a mais do que um miserável aquecimento no Inverno. De facto, passo mais frio em Portugal que na Noruega.

Não se pode olhar para as energias alternativas - conceito que é diferente de energia renovável, que  inclui também a energia hidroeléctrica -, sem ter em atenção o seu custo. Se a austeridade é um remédio tão forte que pode matar o doente, o mesmo se passa com as energias alternativas: são tão caras que não se podem utilizar (ou só os ricos o podem fazer - o que parece não ser grande problema na estratégia Socrática).

quarta-feira, 13 de junho de 2012

É um prazer ouvir pessoas inteligentes

Na RTP1, no programa de Maria Elisa desta 2º feira, pôde ouvir-se António Borges, Victor Bento e António Vitorino - pessoas inteligentes, dando a sua opinião sobre o País.
O que mais me admirou desse debate, se é que de debate se tratou, é que António Borges, que parece conhecer a situação melhor que alguém, afirmou que a economia portuguesa está mesmo a reestruturar-se para melhor, e mais rapidamente do que se esperava. Isso é muito bom; sinceramente, que não esperava. Mas, infelizmente, ele não apresentou números. Pelo que afirmou, parece «basear-se» na interpretação das «baixas» taxas de juro dos empréstimos obtidos pelo País nos últimos tempos, no interesse dos estrangeiros em comprar as empresas públicas, ou o que resta delas, e no aumento das exportações e diminuição das importações. Parece-me muitíssimo pouco - muitíssimo pouco mesmo, para poder concluir que as medidas estão a resultar.
Se, afinal, pouco coisa ou nada se fez que não fosse restringir a despesa do Estado - por falta de dinheiro (o dos impostos e porque o mercado não empresta ou só empresta a juros elevados), consequentemente empurrando a economia por inerência intrínseca a essa falta de dinheiro (de cujo resultado são as falências e o aumento das exportações) -, como as coisas estão a «ir bem»? Ou seja, aquilo que, de estrutural, deveria estar a acontecer, que como é evidente deveria estar a acontecer no Estado e no seu aparelho, não aparece naquilo que António Borges apontou como sinal de que as coisas correm bem e depressa. É evidente que a economia está a reagir, e a sociedade civil também - mas, isso não podia deixar de acontecer face à austeridade a que o Estado foi submetido por falta de dinheiro (e, não por ter «outra« Vontade); quem não reage (para além de não poder pagar por falta de dinheiro) é o Estado, nem está a fazer o esforço necessário nesse sentido. As causas estruturais e culturais que conduziram à Crise preservam-se: haja dinheiro, e o Estado volta ao mesmo.

A este respeito é interessante a intervenção de Cintra na entrega do Prémio Pessoa. Em síntese, ele diz que a Cultura - a Criação - precisa de subsídios a fundo perdido.
Imaginemos Cintra, na rua, a dirigir-se a alguém: psiu, psiu, o Sr. não se importa de me dar dinheiro a fundo perdido, para eu poder Criar uma peça de teatro? É fácil imaginar a resposta: vai trabalhar homem, que eu também trabalho, ou: "se vai fazer uma peça, deverá poder recuperar o investimento nos bilhetes; porque está a pedir dinheiro a fundo perdido?". Réplica de Cintra: "é que a minha peça não interessa a muito gente, é que essa gente não tem cultura, o investimento não é recuperável". Aí, o potencial dador abre a boca de espanto: "eu tenho de trabalhar a contento da sociedade que compra o meu trabalho, mesmo que essa sociedade seja sem cultura; só assim ganho a minha vida, e você pede-me o meu dinheiro, ganho com o meu trabalho, frequentemente de forma penosa e monótona, ainda por cima a fundo perdido. Como tem coragem? Como tem coragem de me pedir dinheiro nas condições em que quer?

De facto, como tem coragem? Como alguém tem coragem de pedir a outra pessoa, que trabalha frequentemente de forma penosa, para lhe dar dinheiro a fundo perdido?
Bem..., isso é imaginação: e má imaginação. O que se passa é o seguinte: o Estado substitui-se a Cintra - faz uma Lei a obrigar, aquele potencial dador, a entrega-lhe o seu dinheiro, ganho a fazer trabalho socialmente-útil (aliás, a entregar muito mais do que aquele que seria necessário a Cintra) e manda a «polícia», para que não haja dúvidas quanto a tal obrigatoriedade. Seguidamente, o Estado dá esse dinheiro, a fundo perdido, a Cintra - que, ainda chateado, acha que é muito pouco para o desenvolvimento da Cultura Portuguesa.

Foram estas pessoas, e, naturalmente, as empresas e, ainda naturalmente, todos os que puderam (ONG´s, IPSS´s, Igreja, etc.) a correr ao Estado a pedir a fundo-perdido - afinal, é muito mais fácil que convencer as pessoas que, sendo a sua actividade é útil (bastaria isso, nem precisaria de ser utilíssima), estas lhes podiam confiar o seu dinheiro (ou, comprar os seus utilíssimos serviços). O Estado que temos é esse Estado, as elites que temos são essas: a «polícia» cobra, eles não precisam de convencer «quem paga» - ora, esse Estado está intacto, nem em reestruturação está; como diz António Borges que as coisas estão a mudar?

Não é por acaso que tivemos Salazar: o Estado está aí para intermediar as relações entra as  elites-subsidiadas e os que pagam. Nesse tempo, Cintra não estava no seio das elites-subsidiadas - mas, o sistema é o mesmo: só muda quem compõe as elites-subsidiadas.

Para já não falar do Estado (que não mudou, como inclusive acho que António Borges gostaria que mudasse), enquanto as pessoas não tiverem VERGONHA de pedir a fundo-perdido, nada mudará!


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Já não corremos o risco do precipício (!?)

Segundo o Primeiro-Ministro, e conforme os bons resultados no cumprimento do programa «Troika», estamos já afastados do precipício.

Bem..., eu não gostaria de ver este Primeiro-Ministro fazer o mesmo que o Sr. Sócrates: animar o Povo na perspectiva que assim a vidinha vai correr bem. Mas...

Como é possível que a situação esteja hoje melhor que ontem?
1º - A dívida aumentou, em vez de diminuir.
2º - O Orçamento está a ser equilibrado pelo lado da Receita - apesar do esforço, nitidamente insuficiente, de redução da Despesa. Ou seja, continua o esmagamento da sociedade, impedindo-a de reagir à Crise - aliás, o esmagamento é tal, que a sociedade civil nada mais pode fazer que sobreviver ou «fugir».
3º - A economia só reagiu «fechando portas» - o que já é um saneamento das Inutilidades que por aí existiam. Todavia, muitas mais há para «fechar portas».
4º - As PPP's pouco ou nada não foram mexidas; aliás, a própria Troika diz que o que foi feito na energia foi pouco ambicioso.
5º - A subsidio-dependência continua na mesma. Ou seja, não foi feito esforço algum para que aquilo que hoje vive do Estado (do dinheiro dos contribuintes) se tivesse de libertar deste - nomeadamente, na Cultura, na assistência e solidariedade social, nos Institutos que por aí proliferam, nas ONG's - que de NG's só têm o nome -, etc. 
6º - Tudo o que se fez no campo da fiscalidade, foi afugentar o investimento nacional e estrangeiro.
7º - Nada se fez na burocracia pública; e, os Tribunais continuam como «antes» -aliás, piores: já que o política tem sido desentupir os Tribunais transferindo para tribunaizinhos aquilo que antes era do domínio da Justiça (só devem estar a brincar, por este andar é melhor pensar numa estrutura alternativa aos Tribunais, para que  Justiça seja feita, e, mandar fechar «estes» e reformar o pessoal).
Etc.

Ou seja, nada se fez de concreto - que, por um lado, diminuísse efectivamente a Despesa do Estado (diminuísse o peso que a sociedade tem de suportar com este Estado) e que, por outro lado, favorecesse a re-estruturação social-e-económica do País face ao modelo predador e subsídio-dependente do Estado face à sociedade, modelo que conduziu à actual Crise.

Então, porque está o Primeiro-Ministro contente? Porque foi bom-aluno; já não é mau sê-lo. Todavia, a preocupação da Troika não é propriamente resolver a situação do País, ainda que isso a preocupe.

A preocupação da Troika é «salvar» os credores - e, como consequência secundária, têm de nos aguentar o suficiente-e-necessário para que lhes paguemos. Nisso, estamos a ser bons alunos - o Povo que o diga; até as PPP´s andam contentes, afinal eles também são credores, os «credores» pelos quais a Troika está cá. Aliás, somos tão bons alunos - para com os credores - que até a Troika acha que deveríamos tratar os «credores» PPP's com um pouco mais de preocupação em defender os interesses de Portugal.

Ora, o «nosso» problema não é esse - pelo menos, não o é inteiramente. O nosso problema é que temos uma sociedade distorcida, profundamente distorcida e doente. A Crise de «a Dívida» foi apenas um sintoma - não se devendo tomar o sintoma pela doença.

Ou seja, nada se fez para atacar a doença - o que se fez foi para atacar a dor-de-cabeça dos credores, como se estes, já sem dores-de-cabeça, se viessem a tornar a meter na «mesma»: emprestar dinheiro ao Estado português em 2013 ou 2014 ou 2015.

É interessante recordar que já há anos que Medina Carreira dizia que, mesmo encarando o «para aonde Portugal se estava a encaminhar dia-após-dia pela acção irresponsável do Estado», não haveria Vontade política para corrigir as coisas; era necessário que o FMI aterrasse em Lisboa.  Bem..., aterrou a troika; mas, aterrou para defender os credores contra este Estado, não aterrou para defender os portugueses deste Estado - «nisso», Medina Carreira enganou-se, o Povo Português não tem Procurador.

É, pois, muito provável que se continue a cumprir muito bem o pagamento às «PPP´s» - e, disso, se vangloria, como bom aluno que é este Estado; aliás, como sempre o foi: criou Dívida a contento de «as PPP´s» e, agora, paga-a rigorosamente.  Até a troika se admira - é, de facto, um Excelente aluno.

domingo, 3 de junho de 2012

Uma Nova Ordem Económica Mundial está a chegar

Poucos terão anotado que ainda há poucos dias a China e o Japão acordaram entre si deixar de usar o dólar como moeda de comércio entre os dois países. Foi este acto «singelo» que deu início a uma Nova Ordem Económica Mundial.

Eu já o estava à espera - não sabia aonde iria começar, de que forma, nem quando. Mas, tal decisão é apenas-e-só o resultado lógico da «brincadeira» com que os americanos trataram a sua moeda - como se o seu povo e os outros povos do planeta fossem marionetas idiotas que tomassem o papel pintado «em dólares» como se fosse moeda; como se ele, por si-só, tivesse Valor.

É contra isso que os Alemães combatem; combateram quando tinham o marco e combatem agora defendendo o euro - e, com isso, respeitando o que de «muito sagrado» qualquer pessoa possui de Si: o Valor do seu trabalho convertido em moeda.
No fundo a brincadeira dos americanos acabava por ser semelhante à daqueles que, cinicamente, querem moeda própria para a poderem desvalorizar à vontade destruindo, assim, a Riqueza criada pelos trabalhadores, poupada na forma de moeda.


Ainda tive a esperança que o euro pudesse substituir o dólar, já que pelo menos este não era papel pintado. Todavia, o descalabro da economia Europeia e a solução adoptada de fotocopiar mais dinheiro, como se este fosse moeda, para resolver a Crise provocada pela estúpida, senão corrupta, Governação dos socialistas e sociais-democratas europeus, tornaram tal possibilidade impossível.


Os países e povos do planeta que, ainda que durante séculos tivessem sido «espremidos», ainda acreditavam na pojante e eficiente Cultura ocidentais; hoje, sabem que essa Cultura está a espernear de tão doente que está.
«Libertarem-se» dela de um momento para o outro é impossível, nem lhes interessa; mas, irem-se libertando progressivamente, inclusive para não se deixarem arrastar pela sua doença, é a melhor solução - e, sem dúvida, essa libertação começa precisamente por aí aonde a doença se propaga: a moeda.


Não duvido que este Movimento vai «pegar». Agora, foi a China e o Japão - e, só os dois já devem arrastar nesse «negócio» um terço da economia do planeta; mas, amanhã serão outros países.

Os sinos já devem tocar a rebate em Washington: se os países produtores de petróleo seguirem o exemplo, mesmo que ainda em acordos bilaterais, é «o fim» do dólar - e, já não há volta a dar. Foram-se as projecções de George Friedman em Os próximos 100 anos - uma previsão para o século XXI, foi-se o século da América. 
Com isso não digo que os EUA «acabem», nem mesmo enquanto potência planetária. Mas, o abalo vai ser enorme: uma Nova Ordem Económica Mundial começará.


É evidente que um tal abalo, ainda mais se súbito, também não interessa aos outros países, mas o «estado» do dólar é tão deprimente que não lhes resta outra solução.

Por outro lado, também pode acontecer que, o acordo China-Japão, venha a pressionar os EUA-Europa a criarem, com os países, uma moeda-de-troca Internacional - evitando assim a queda no CAOS das economias ocidentais, o que não é bom para ninguém.

E, aí sim, vamos ver as regras alemãs de gestão da moeda a serem re-tomadas para a gestão da nova moeda internacional - já que o descalabro do euro terá servido mais de exemplo à nova moeda do que a do dólar que, apesar da sua internacionalização, é a moeda de um País.














sábado, 2 de junho de 2012

Foram os Privados que ganharam!

Bem..., pelo menos parece que já se começou a entender que o Povo português está perante uma Dívida Odiosa - um dívida criada pelo Estado contra os mais elementares interesses do País. Até o Tribunal de Contas, que sempre esteve - formalmente - calado, vem agora formalmente a terreiro para o dizer.

Todavia, a Culpa parece que começa a ser lançada sobre os Privados, bancos e demais as empresas privadas.

Isso é um erro grave - um erro de Princípio. Se não se olhar para «o Erro» as coisas não mudarão - como acabaram por não mudar pós 25 de Abril, apesar de todas as esperanças e expectativas.
Idêntico erro foi cometido por Marx - e acabou por resultar no flagelo do comunismo como o conhecemos nos países do Leste europeu, em Cuba ou na China.

O erro de Marx foi ter atribuído a «exploração do homem pelo homem» aos capitalistas, «antes» deles à nobreza, e ainda «antes» aos guerreiros, etc. Na sua divisão da sociedade em classes - que, aliás, não é sua -, as classes a que se refere são a burguesia, o proletariado, o campesinato, a nobreza, o clero, etc. - às quais, outros teóricos marxistas, irão acrescentar «novas» classe sociais, como o lupem-proletariado por exemplo.
Todavia, todos eles como-que se esquecem de uma classe fundamental: a classe política - da qual, aliás, podem sair membros provenientes de todas as outras classes. A classe política - como todas as outras classes - distingue-se, e assim se constitui como classe, pelos seus interesses específicos.

Essa classe foi esquecida - possivelmente, porque se considerou que, sendo a política necessária e um contínuum histórico (aliás, como o é a «exploração do homem pelo homem), ela não justificaria a mudança histórica nem a tal «exploração do homem pelo homem».

De facto, não é assim. E, ainda que a política seja necessária e seja um contínuum histórico - existe sempre -, os países mais desenvolvidos foram precisamente aqueles que meteram «arreios nos dentes» dos políticos: a Inglaterra e os países que seguiram a sua Tradição Cultural. Ou seja, quando os operários tomaram a Rússia «viraram» políticos e, como tal, «entornaram o caldo»; quando os camponeses tomaram tomaram a China «viraram» políticos e «entornaram o caldo»; quando a burguesia intelectual tomou Cuba «viraram» políticos e «entornaram o caldo»; etc.

No capitalismo não são os capitalistas que mandam, ainda que eles influam, e, com muita força. O poder do clero não está em mandarem - como o dos capitalistas -, está em influir. Um e outro influem, nomeadamente influem pelo seu saber, capacidade de persuasão, até pelo dinheiro e capacidade de iniciativa. Quem manda, são os políticos.

Note-se que, ainda mais nas sociedades modernas, o mando tem de se sustentar na Legalidade. Ora, quem Define e Cria Legalidade - aos actos - é o político, é a classe política. Ou seja, quem manda é sempre o Estado.

Por exemplo, um qualquer «desgraçado» que queira sobreviver e fazer sobreviver a sua família e filhos - como qualquer de nós - tem de trabalhar, tem de «poder trabalhar». Mas, quem o autoriza a trabalhar é o Estado - é a classe política; é esta que define regras: diz o que pode ou não fazer, como fazer, aonde fazer, o que tem de pagar para «poder trabalhar» e o que deve pagar «depois de trabalhar», etc., etc.
Olhemos um «desgraçado» que quer construir uma casa como negócio. Tem de se dirigir ao Estado. O Estado, ainda que «obrigado« a cumprir a Lei que ele-próprio criou, «retém» a sua decisão de autorizar, «retém» e «retém» e «retém» até que o «desgraçado» - como todos nós os não-Estado - lhe oferece uma Prenda. Resultado: a autorização «sai». Quem manda»? O Estado ou o que tem-de-pagar a Prenda?
Outra situação, o «desgraçado» - que já não é «desgraçado» -, aprendeu que a Prende abre portas ao próprio Legal. Então, que tal fazer o ilegal? Será que abre portas? Claro que abre. Quem tem o mando: o capitalista ou o Estado?

O Estado manda sempre, até porque pode legalizar o ilegal. A classe política é quem manda - as outras servem-na, ainda que umas (os capitalistas, o clero) lhe sirvam mais que outras (o proletariado ou o campesinato).

Aliás, eles mandam tanto que, quando dizem que querem combater o corrupção, começam logo por definir que o corruptor activo é quem paga, e, o corruptor passivo - eles - é quem recebe. Ou seja, começam logo por definir o malandro: o que pagou - como se eles fossem os anjinhos neste processo.
Ora, é precisamente ao contrário: o corruptor activo é o político, o corruptor passivo é o desgraçado que tem-de-pagar- tem-de-pagar  para poder trabalhar para sustentar a sua família. «Tem de pagar», mesmo para a Lei ser aplicada pela classe política.

Não foram os Privados que conduziram e ganharam com a ladroagem, com a Dívida Odiosa, que a classe política fez ao País, ao Povo português. É evidente que eles também ganharam - afinal, tinham de «trabalhar»; quem mais ganhou - aliás, quem conduziu todo o processo - foi a classe política.

Aliás, é porque continuo a duvidar que a classe política do País tenha mudado, que duvido fortemente que tal classe seja capaz de conduzir os portugueses para fora do pantanal aonde os colocou. Tudo indica que serão os «desgraçados» - os mesmos - a ter-de-pagar.

O único exemplo Cultural, até hoje existente, aonde a classe política se comporta de «outra« maneira, foi aí aonde os cidadãos lhe conseguiram colocar um «arreio nos dentes»: na cultura anglo-americana. Afinal, tal classe tem sempre de existir!




terça-feira, 29 de maio de 2012

Diminuir salários para tornar a economia portuguesa competitiva (!?)

Diminuir salários para que a economia portuguesa se torne competitiva - poder exportar e pagar a dívida de «o Estado» - constitui um absurdo quando o salário médio em Portugal é já o mais baixo da Europa - metade do da Grécia -, com excepção do de alguns países da UE do leste europeu. Até a região de Xangai, na China, já possui salários médios idênticos aos de Portugal.

Uma tal «visão» é típica dos economistas, que, ao verem as coisas de «o alto», se esquecem que por detrás dos números há uma Realidade que conforma esses números - ou seja, os números não valem por si-mesmos.

Ora, olhando para Portugal, primeiro para os salários, o que vemos é que os salários médios da função pública são o dobro do salários da economia privada; a diferença será possivelmente ainda maior se dessa economia privada se retirar aquele economia privada que é protegida pelo Estado (contra os cidadãos) - dados da Prodata, dados gratuitos a que todos podem ter acesso (já que os dados estatísticos de «o Estado» estão indisponíveis uma vez que têm de ser comprados ao Estado). Paralelamente, se se levar em linha de conta que em Portugal ocorre uma das maiores diferenciações salariais da OCDE, então fácil é concluir que «diminuir salários para aumentar a competitividade da economia» - subentenda-se: da economia privada - constitui um absurdo.

Os salários que têm de ser diminuídos serão - porventura - os da função pública em geral e os dos quadros dirigentes em particular (em especial, o das empresas protegidas). É aí que os salários são absurdamente elevados - relativamente aos praticados no sociedade civil; em especial, tal deveria acontecer nas empresas protegidas, já que aqui nem há mercado e, simultaneamente, os salários são garantidos pelas Rendas concedidas pelo Estado à custa dos contribuintes líquidos, ou seja dos cidadãos «sem direitos adquiridos».

Aliás, as «privatizações» de sectores tecnicamente monopolistas e de outros que, não sendo tecnicamente monopolistas, foram entregues à gestão privada, acabaram por resultar simplesmente em aumentos de custos salariais exponenciais de um dia para o outro sem que a qualidade do serviço fosse minimamente melhorada. Paralelamente, os investimentos efectuados por essas entidades «privadas» continuaram a ser pagos pelo Estado, ainda por cima pagos muitas vezes acima daquilo que o próprio Estado pagaria se fossem feitos directamente por si-próprio.

É um tontice dizer que os salários tem de diminuir em Portugal para que a economia se torne competitiva. A Povo português já vive, em geral, na miséria - com salários médios muito abaixo dos padrões europeus, já tão baixos que se comparam aos praticados em economias sub-desenvolvidas.

O que se passa é que há uma distorção grave na estrutura económica - e social - que o Estado «criou» em Portugal após o 25 de Abril. Uns a viverem muitíssimo bem e, outros, a viverem na miséria porque têm de «alimentar» aqueles (através de Impostos elevadíssimos e de Preços protegidos). Foi para aqueles que vivem muitíssimo bem, que o Estado contraiu dívidas enormes que, agora, quer que sejam os já-miseráveis a pagar.

Em vez de se dizer que o Crescimento da economia portuguesas depende da prática de salários ainda mais baixos - para concorrer com a China e a Índia -, há que dizer que é preciso Libertar os portuguesas e a economia portuguesa dos encargos elevadíssimos que a economia «protegida» e, também, o Estado obrigam aqueles a pagar. São esses encargos - elevadíssimos - que tornam a economia portuguesa não competitiva; são ainda esses encargos elevadíssimos que impedem a economia portuguesa de arrancar, nomeadamente que a impedem de iniciar a necessária re-estruturação de «o existente», de aquilo que conduziu Portugal à Crise, daquilo de que Portugal tem de se livrar urgentemente.

É igualmente por isso, porque o que se exige é uma «limpeza», que é pouco admissível que os actuais políticos sejam capazes de o fazer. Por um lado, foram eles que conduziram o País a tal estado e, por outro lado, eles já se habituaram - constituindo já tradição - a considerar que «os que vivem muitíssimo bem», devem continuar a viver «muitíssimo bem» para poderem criar postos-de-trabalho aos miseráveis. Ou seja, quando dizem que o Crescimento exige diminuição salarial, é mesmo a diminuição salarial dos já-miseráveis a que eles se referem - e, quando dizem que é preciso ter moeda própria para a poderem desvalorizar, é ainda na diminuição (encoberta) dos salários dos já-miseráveis a que eles se referem.

Bem..., o que vem aí pode ser muito mau, muito mau mesmo. Os miseráveis não vão poder pagar a Dívida «deles», de tão grande que ela é - e que continua a aumentar segundo-a-segundo. O sistema político não permite mudar a «gente» que domina a Política em Portugal. Ou, os alemães pagam já «isto», ou vai haver por aqui um grande estoiro - e, não vão venham dizer que foi por «contágio» do estoiro grego; a «doença» já cá está e não se cura com a diminuição dos salários dos já-miseráveis.





sábado, 26 de maio de 2012

O único culpado da Crise é o Estado

A intervenção do Estado com vista à Solidariedade, Emprego e Crescimento - como se tem feito após 25 de Abril - tem vindo a aquecer permanentemente a economia portuguesa: isto é, tem lançado na economia, empresas e pessoas, excesso de liquidez. «Tudo» é pago muito acima dos preços que numa economia de mercado liberal (!) se pagaria - só assim o Pingo Doce pode ter lucros mesmo fazendo um desconto de 50% sobre todos os seus produtos. Aliás, «os 50%» do Pingo Doce são um bom exemplo do que se passa no mercado não-liberal que acontece em Portugal.

Também, a EDP acaba de «aceitar» - de facto, ela própria deve tê-lo proposto, para acalmar ânimos - uma redução de Rendas que, parecendo de montante excessivo, apenas afecta 1% das suas receitas e 2.5% dos seus lucros. Os donos das auto-estradas, de tantas Rendas que já têm, parecem estar mais preocupados que as viaturas  não as estraguem - o que exigiria despesas de manutenção - do que em assegurar mais clientes - bem..., agora também «aceitam» uma redução de Rendas. As empresas municipais, a primeira coisa que fizeram ao serem privatizadas, foi aumentarem (custos e) preços - Rendas - sem terem alterado o que quer que fosse na quantidade e qualidade da prestação de serviços.Etc.

Ou seja, quando o Estado monopoliza a riqueza nacional - retirada dos cidadãos através de impostos extorsionários  - transforma-se verdadeiramente  no único agente-económico nacional; tudo o que acontece no País é determinado pelo (e serve ao) Estado. Até as ONG's ou Agências de combate à fome, e IPSS ou, até, a Igreja, deixariam de existir se os subsídios do Estado deixassem de lhes chegar - aliás, muitas dessa instituições só foram criadas porque havia subsídios para distribuir.

Mas a intervenção do Estado não se fica por aqui. O Estado reserva mercado aos «Privados» - como já acontecia no tempo-de-Salazar -, o Estado «privatiza» as suas responsabilidades para depois pagar Rendas (sempre excessivas) àqueles que as passaram a realizar em seu nome, o Estado adjudica acima dos preços que um qualquer Privado alguma vez o faria, o Estado dá à gestão privada as suas próprias instituições aumentando assim de um dia-para-o outro os seus encargos, o Estado negoceia acções a realizar por entidades privadas contra Rendas (excessivas) a pagar por si ou pelos portugueses durante períodos «inimagináveis», ETC.

A Crise que Portugal hoje vive, mesmo naquilo que é da responsabilidade dos privados - empresa e pessoas -, é de facto uma Crise criada pelo Estado Português. Criada pelo Estado português, porque tal Estado comanda toda a economia: intervindo directamente, estimulando ou des-estimulando, excepcionando este ou aquele da Lei Geral, ou fazendo-lhe uma Lei à medida, etc. Como nas economias planificadas ou fascistas, o Estado é o único que ordena em Portugal - e, o resultado, também como sempre aconteceu naquelas economias, desembocou na Crise.

Tudo estava «rico», de um momento para o outro, com as Rendas do Estado - só, os portugueses não-subsidiados estavam pobres (pelo menos, tinham um «bom» emprego a salário-mínimo). Bem..., de facto também os credores estavam a ficar com o rabo-a-arder, sem disso se aperceberem. Afinal, alguém tinha de pagar o eldorado aonde o que valia 10 era pago pelo Estado como se valesse 100! Distribui-se o que se tinha e não tinha - e, a isso, chamou-se Solidariedade, Emprego e Crescimento.

Não foram os portugueses - ou mesmo as empresas - que viveram acima das suas possibilidades. Foi o Estado que viveu acima das suas possibilidades e «obrigou» os portugueses e empresas a viverem acima das suas possibilidades. O Estado «criou» uma Realidade fictícia - só possível, porque os credores olharam para «este» Estado como se fosse igual a um «Estado Europeu» e, só possível, porque as empresas acreditaram na Garantia Soberana de tal Estado e, só possível, porque os portugueses viveram «bons dias», qual «o dia» em que o seu clube-de-futebol ganha.

É evidente que se está perante um «problema de Estado» - isto é, como foi possível que um tal Estado tivesse surgido? Como o pós 25 de Abril pôde evoluir para tal «coisa»?
Mas, está-se também perante uma questão Ética - que tipos-de-pessoas são estas que conduziram o «seu» País e o «seu» próprio Povo para tal situação? Para mim, esta é a questão mais grave: que tipo-de-pessoas são essas?


«Secretas»

O problema das «Secretas», não É o problemas de «as Secretas» - seria bom que fosse, pois estar-se-ia perante um problema que se esgotaria em si-mesmo, porque se confinaria em si-mesmo.

O problema das Secretas é um problema relativo à segurança do Estado e do País, em si-mesmos, é um problema relativo à própria Soberania de Portugal, relativo até à sua própria Existência. Potencialmente, o problema das Secretas vem colocar a possibilidade de forças «inimigas» a Portugal - e aos portugueses, enquanto «um Povo» - tomarem conta do seu Estado e, deste modo, do País sem que estes se apercebam. O problema das Secretas é a possibilidade da confirmação de «o bom general» de Sun Tzé: o melhor general é aquele que conquista um País se disparar um tiro.

Em geral, quando os Estados são «excessivamente» concentradores e monopolizadores, o risco das Secretas assumirem um papel dominante na condução de tais Estados é elevadíssimo. Pior ainda quando há um ponto-de-comando bem definido - e, incontestável e incontrolável; neste caso, torna-se sempre possível uma operação de tomada-de-poder dirigida «contra» tal ponto-de-controlo. Mesmo o controlo de um Primeiro-Ministro ou de um Presidente, ou de um ou mais partidos-de-Poder, não é tão eficaz como controlar «as Secretas» - já que estas, porque são secretas, estão longe do olhar-do-público, estão longe do escrutínio público, e até, das outras forças de Segurança.

O problema das Secretas, não é pois o problema das Secretas; é um problema de Soberania Nacional.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

"A austeridade é a mais, é preciso crescimento"

Não há dúvida que Portugal ainda não começou a pagar as suas dívidas - por isso, ela continua a aumentar dia após dia - e já possui o seu Povo na penúria e o seu património na mão de estrangeiros. Ou seja, «basta de austeridade, é preciso crescimento».

Todavia, esta conclusão é óbvia. É tão óbvia, que foi o «crescimento» que colocou o País e o Povo português na actual situação; é tão óbvia, que até há quem diga que o actual «modelo de desenvolvente»  está esgotado.
A questão não está pois em repetir o «o óbvio». Pelo contrário, é preciso dissecar o óbvio, para que não se repita - como se tal fosse possível! - o que obviamente caiu sobre o País e os portugueses.

Ora, e dissecando o «o óbvio», a primeira coisa a reparar é que tal não constituiu propriamente um «modelo de desenvolvimento» - o seguido pelos Governos pós 25 de Abril. Nunca em sítio algum, nem no plano político nem no económico, se apresentou um «modelo de desenvolvimento» cuja matriz é o «roubo» dos Rendimentos de um Povo - «isso» não constitui um «modelo de desenvolvimento». Ou seja, Portugal nunca teve «em facto» um «modelo de desenvolvimento»; portanto, não digam que o actual modelo-de-desenvolvimento está esgotado, há não ser que queiram dizer que já não há mais nada para roubar. Bem..., e os processos judiciais em curso, e outros que nem judiciais se tornaram, envolvendo sempre as elites políticas, mostram o quanto a matriz política do País foi o «Roubo», pura e simplesmente o Roubo, ainda que parte dele «legalizado» - afinal, «o Modelo».

Ainda dissecando o «o óbvio», de que crescimento estão a falar aqueles que dele falam? Se não há dinheiro, nem para pagar as dívidas que se vencem, aonde pensam eles ir-buscar o crescimento?

Pelo discurso, parece que pensam ir buscá-lo à Alemanha. Afinal, «o rico tem obrigações para com o pobre», nem que seja quando tal pobre ficou pobre porque os seus próprios irmãos se encarregaram de o espoliar!
Ainda pelo discurso, parece que acham que o ainda existente «modelo de crescimento»  não está esgotado - afinal, agora há que pagar dívidas e fazer-crescer, e, «isto» é também um bom negócio, especialmente se há alguém (e só pode ser a Alemanha) que caia na esparrela de enfiar dinheiro nisso.

Bem..., parece que é óbvio que a negociata «quer continuar». E, se antes ela foi feita para «salvar o povo e o trabalhinho do povo», agora ela também é feita para «salvar o povo e o trabalhinho do povo».  Basta de austeridade - claro, a do povo, porque a «deles» não existe.
E, não existe, tanto que  as PPP's não foram mexidas até agora; e, agora, as que estão a ser mexidas são-no com o beneplácito dos próprios Privados - «o beneplácito», que o Ministro da Economia quer camuflar como se tratasse de um imposto por ele imposto a tais PPP's, ainda que o próprio Tribunal de Contas afirme que tais PPP´s são bandidagem «legalizada». Aliás, a favor das PPP's, um Secretário de Estado foi posto na rua e outro foi corrigido.

O «modelo de desenvolvimento» não está afinal esgotado: «Basta de austeridade, é preciso crescimento» - é a forma «actualizada» desse modelo. Aqueles que levaram o País à ruína, são agora aqueles que se propõem tirar o País da ruína - acreditam?




quarta-feira, 23 de maio de 2012

A ordem dos fatores
Olavo de Carvalho
(publicado no Brasil) em Diário do Comércio, 21 de maio de 2012
 

No estudo admirável que publicou em 1994 sob o título The Soviet Tragedy, Martin Malia pergunta por que os sovietólogos ocidentais, tão prestigiosos, tão bem pagos, tão dotados de amplos meios de investigação, não atinaram nem por um momento com a queda iminente da URSS, e ao contrário continuaram prevendo, até a véspera do desenlace, uma nova era de progresso espetacular para o gigante de pés de barro.
O caso mais patético foi o de Paul Kennedy, historiador da Yale University, cujo livro Ascensão e Queda das Grandes Potências, anunciando para breve a queda dos EUA e a ascensão da URSS como potência dominante, virou um best-seller mundial, foi traduzido em 23 idiomas e celebrado como o nec plus ultra em matéria de análise estratégica. Isso foi em 1987: três anos antes que o curso das coisas o desmentisse fragorosamente, provando, pela milésima vez, que o aplauso universal da mídia reflete apenas o entusiasmo da uma multidão de cegos tagarelas pelos cegos ainda mais tagarelas que os guiam.
Em contraste, assinala Malia, os dissidentes internos, Bukovski, Soljenítsin, Zinoviev e tantos outros, nunca cessaram de insistir que o comunismo era irreformável, que sua autodestruição era apenas questão de tempo, mas eram recebidos com ceticismo no ambiente acadêmico ocidental, que os via como sonhadores incapazes de atinar com o poder de auto-renovação do regime soviético.
Pior ainda, os desertores da KGB e do serviço militar soviético, que traziam inside information da melhor qualidade, anunciando que o sistema estava consciente de ter de desmantelar-se até mesmo para salvar o que restasse do movimento comunista mundial, foram desprezados como “teóricos da conspiração” pelos serviços de inteligência ocidentais, isto é, pelos mais autorizados sovietólogos do mundo, porque os diagnósticos que ofereciam vinham só dos altos círculos governantes, sem levar em conta – alegava-se – as realidades sociais e econômicas do regime. O mais brilhante desses desertores, Anatolyi Golytsin, cujas previsões acabariam depois se revelando acertadas em pelo menos 94 por cento, foi o mais criticado e ridicularizado pelos bem-pensantes.
Martin Malia pergunta-se como foi possível que erros tão colossais se tornassem verdades indiscutíveis para toda uma elite acadêmica espalhada pelas maiores universidades, institutos de pesquisa, think tanks e serviços da inteligência da Europa e dos EUA, praticamente sem uma única voz discordante.
Ele poderia ter respondido, genericamente, que a principal tarefa do consenso acadêmico há duzentos anos tem sido precisamente a de impor a autoridade do erro como padrão supremo de racionalidade em todos os campos do conhecimento humano, e acabar sendo sempre desmentido por um ou dois gênios isolados, teimosos e mal subsidiados.
Mas ele preferiu dar uma ilustração mais detalhada dessa resposta.
Os estudos sovietológicos no Ocidente, no seu empenho de tornar-se cientificamente respeitáveis, seguiram em linhas gerais as duas tradições mais badaladas no campo da sociologia histórica, o positivismo e o marxismo. Segundo essas duas escolas, o rumo das coisas na esfera político-ideológica é, ao menos a longo prazo, determinado por fatores mais básicos de ordem econômico-social.
Esse princípio servia portanto, uniformemente, para analisar tanto as sociedades ocidentais como a soviética. Dele os sovietólogos concluíam que o “potencial de crescimento” da sociedade soviética terminaria por prevalecer sobre a rigidez ideológica da elite governante, forçando-a modernizar o regime para liberar, como diria Marx, as “forças produtivas”.
Nesse diagnóstico, diz Malia, não contavam com dois fatores: a força avassaladora da elite revolucionária, que ao longo de seis décadas diluíra e remoldara a seu belprazer uma sociedade passiva e inerme, e a rigidez imutável das instituições de controle governamental criadas por essa mesma elite, capazes, no máximo, de variar a dose de violência repressiva que aplicavam a cada momento, porém jamais de reformar-se de alto a baixo. Na URSS, em suma, não vigorava a hierarquia marxista de uma “infra-estrutura” econômico-social a determinar os rumos da “superestrutura” ideológica e política. A superestrutura havia se fortalecido e enrijecido a tal ponto, que já não podia refletir as mudanças da infra-estrutura: o regime soviético só podia eternizar-se, estrangulando a sociedade, ou suicidar-se para deixar a sociedade viver. O plano reformista de Gorbachov fracassou e o governo soviético foi repentinamente suicidado por um bêbado corajoso. Quod erat demonstrandum.
Ao consentir em usar as categorias de infra-estrutura e superestrutura como instrumentos essenciais de análise do fenômeno soviético, os sovietólogos ocidentais mostraram ter-se deixado hipnotizar pelos esquemas mentais do inimigo, tentando apenas usá-los com signo político invertido. Isso nunca funciona.
Os dissidentes, ao contrário, jogaram o marxismo fora junto com a discurseira oficial do Kremlin, e buscaram categorias de pensamento radicalmente novas, inspiradas em parte na filosofia da religião, em parte na lógica matemática, em na própria tradição literária russa, chegando a desvendar os mais íntimos segredos do sistema soviético ao ponto de diagnosticar com clareza o seu estado terminal.
Nossos liberais e conservadores teriam algo a aprender com essa lição, mas quem pode com gente de casca grossa e miolo mole? Metade deles acredita que a economia move o mundo (como se hoje em dia não fosse ela o mais volátil dos fatores), a outra metade imagina que o melhor que tem a fazer é macaquear o programa cultural da esquerda.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A ENERGIA ELÉCTRICA

A TVI fez, ontem, uma interessante reportagem sobre a ENERGIA ELÉCTRICA em Portugal. Vale a pena ver - deve estar disponível na Internet.

A única observação - complemento - que gostaria de fazer, é chamar a atenção que «o Capitalista», e o Capitalismo, não têm culpa de nada - como a esquerda gosta de ver as coisas, ilibando deste modo o Estado. Aliás, nisto está o grande Erro de Karl Marx.
Os «interesses» das empresas de electricidade só foram capazes de ser o que são e de se manifestar como se manifestaram, porque os políticos portugueses (o Estado) é que são, e continuam a ser, os verdadeiros interessados nesses «interesses». Não é por acaso que aqui, como noutras coisas, o monopólio, os preços fixados, as restrições de mercado e, como se não bastasse, o pagamento do Investimento realizado, é suportado pelos miseráveis dos portugueses - com o comentário douto da esquerda e da direita, que é para BEM desses miseráveis. Ainda por cima, chamam a este tipo de mercado de liberal!? - e, ao outro, que não lhes defende os «interesses», de ultra-liberal.

Bem... se não houvesse Crise, ainda vá que não vá. Só que tais elites foram muito longe, na incompetência e na roubalheira - de esquerda e de direita. Agora, só levar esses senhores a Tribunal Internacional - que, por cá, não há tribunais. Bem..., é a Democracia do pós-25 de Abril, aquela que gerou a Constituição «mais avançada do mundo» - estamos a ver os resultados.

Uma coisa é certa: não vamos poder pagar a Dívida que os «interesses» dos políticos criaram - a não ser que se mate uns bons milhares de idosos de um dia para o outro (o que não parece estar posto de parte). O único problema é que temos de justificar porque não o fazemos. E, a única justificação, é fundamentar-se que tal dívida é odiosa (como a do Iraque, ou a de qualquer país governado por máfias). Ou seja, os políticos têm de ser colocados em Tribunal Internacional e a Constituição - que permitiu isso - tem de ser considerada ERRADA.




Viva o Pingo Doce

O que o Pingo Doce acabou por fazer, ao dar um desconto de 50%, foi como-que devolver aos portugueses aquilo que o Estado lhes tinha tirado no subsídio de férias e de Natal.
Mas, o Pingo Doce, fazer isso, nem me admira - trata-se de uma política comercial, ou mesmo de solidariedade social - nem interessa -, cujos efeitos positivos ou negativos são sofridos pelo Pingo Doce. Eu agradeço - e, em co-solidariedade, vou passar a ir mais vezes ao Pingo Doce.
O que me admirou - e, de facto, nem tal deveria ter acontecido - foi como a elite portuguesa, elite política e cultural, se manifestou. O que se passará neste País se as pessoas e instituições civis passam a ter iniciativas fora do Estado, inclusive das instituições PPP's - como são os sindicatos e outras do género (IPSS, etc,, até a Igreja subsidiada pelo Estado)? Será um horror! É uma revolução - como nem o 25 de Abril foi! Foi assim que a elite se manifestou.
Afinal, nada de admirável. Não foi por acaso que foi esta elite que destruiu o País. E, não é por acaso que nem consegue pedir desculpa aos portugueses pelo que lhe fizeram.
Sejamos francos, o País continua governado por Fascistas - de esquerda ou de direita, tanto faz. O Estado é o seu trono; não: há sociedade civil. Enfie-se-lhe a ASEA - a nova polícia política - em cima.

quinta-feira, 29 de março de 2012

A coragem de um Humanista

Humanista - Humanista, o que é isto?

O Papa sê-lo-á com certeza - todavia, a Inquisição «parece» ter tido pouco de Humanidade. E, mesmo na acção de muitos prelados da Igreja de hoje, parece haver muita pouca Humanidade.

De facto, em geral, da Humanidade de este ou daquele o que parece defini-la é «a Intenção» - já que, ser-se ou não Humanista, é algo que se localiza no Futuro, no desconhecido. Tem-se a Intenção, mas a correspondente acção pode conduzir a um resultado oposto ao pretendido.
Ser Humanista, num concepção simplista, é lutar pelo bem-estar dos outros - é uma forma de colocar em acção aquilo que no Ocidente se atribui a Jesus: amemos o próximo, mesmo o nosso inimigo.

De certo modo, terá sido isso que aconteceu com a Inquisição, como terá sido isso que aconteceu com a Revolução bolchevique e terá sido isso que aconteceu com Fidel de Castro. Fidel de Castro é sem dúvida um Humanista - todavia, o resultado do seu esforço para «amar os outros», e o de obrigar todos a seguir-lhe o exemplo, parece ter resultado mais como se os odiasse a todos do que se os amasse.

Infelizmente, em geral é sempre esse o resultado - até porque o Futuro é e continuará desconhecido, aleatório e imprevisível. Todavia, só falamos hoje de Fidel de Castro ou de Lenine e Estaline, ou de Mao, ou até de Hitler - todos grandes Humanistas - porque souberam tomar conta de um Estado que, por ser omnipotente e omnipresente, projectou as suas respectivas «Intenções» de Humanidade numa dimensão tal que, cada um deles individualmente, nunca o conseguiria, nem possivelmente conseguiriam convencer os vizinhos do lado num tal grau que a sua Intenção Humanitária se tornasse notada. Foi o Estado que lhes permitiu que tal acontecesse.

Mas, o que gostaria de salientar é outra coisa, muito menos óbvia - e incomum. É que se diz na imprensa que Fidel de Castro pensa abraçar de novo o Cristianismo - naturalmente, enquanto uma forma de praxis pessoal e enquanto uma crença Ideológica.

Nada se garante quando à sua veracidade. Todavia, a acontecer isso, só iria revelar o quanto de elevado poderá haver nesse homem. Muitos outros Humanistas - ainda que apreciadores das consequências «pouco ou nada Humanistas» dos seus próprios actos - nunca tiveram a coragem de dizer ao seu Povo e ao Mundo: desculpem, que eu errei.

Por exemplo, Mário Soares, sobre o qual não tenho dúvida alguma sobre a sua Intenção Humanista (ainda que possa estar a ser inocente): o Fundador do Portugal pós-25 de Abril, ainda não veio a público pedir desculpa aos portugueses. Muita da miséria para a qual os portugueses foram atirados e, até, para o estado de auto-destruição do País, no qual tudo está a cair na mão de estrangeiros - agora, nem é preciso imigrar para se ser trouxa-e-doméstica -, é o resultado, não previsível por ele, das suas próprias acções Humanitárias - tal qual Fidel de Castro ou Hitler ou Estaline. Nem Salazar, também um Humanista, fez tão mal a Portugal e ao Povo português.

Note-se que, com isso, eu não estou a criticar ou, até, a discordar da sua Humanidade. Toda a Intenção Humanitário é sempre potencialmente boa; a própria Intenção já o é em si-mesma. Eu nem estou mesmo a criticar que eles tenham tido a inteligência suficiente para tomarem nas suas mãos Estados «fortes», omnipresentes e omnipotentes, susceptíveis de transformarem em acção, com elevadíssima eficácia, as suas Intenções.

O que eu estou a criticar é que lhe tenha faltado - pelo menos, até agora - a Honestidade Intelectual - e, igualmente, Humanista - para vir a público pedir desculpa, dizer que Errou; pelo menos, vir a público interrogar-se a si-próprio e aos seus correlegionários: «aonde nós Errámos?» Como foi possível que tivéssemos conduzido e-ou permitido-conduzir este País à sua própria auto-destruição?

É isso que Fidel de Castro fará se abraçar de novo o Cristianismo - já que o Comunismo, que o orientou na sua acção, na acção da qual emergiu precisamente o oposto daquilo que era a sua Intenção, é a antítese do Cristianismo.

Se tal acontecer, Fidel de Castro não está só a pedir desculpa ao Povo Cubano, Fidel de Castro está a Libertar o Povo Cubano para que procure outras vias - pois, o Humanismo, em si-mesmo, e a sua possibilidade não morreram.

O discurso do PM: «segue-se em frente»

Ontem o PM deu uma conferência na TVI. Mais tarde o seu Secretário de Estado dos Transportes esteve num programa na SIC.

Sem dúvida que o PM e a sua equipe têm um discurso coerente e interessante. O que me admiro, é que tal discurso possa causar espanto - ou que indicie mesmo alguma mudança de Governação face ao que até aqui se vinha fazendo.

De facto, nada do que está a ser dito e feito pode deixar de ser assim. Portugal meteu-se num buraco: uma estrutura económica e social ineficientes e uma Dívida impossível de pagar.

Ou seja, a austeridade, que todos querem criticar ao Governo, é algo impossível de não acontecer. Aonde está o dinheiro para pagar o modelo-de-gastos que o Estado vinha impondo ao País nos últimos 30 anos? Claro, não existe! Então, como não haver austeridade? É óbvio que tem de haver austeridade, como é óbvio que não foi este Governo que a impôs: pura e simplesmente, ela teria de acontecer.
Daí, consequentemente a falta de mercado para aquilo que era o mercado-tradicional português (auto-estradas, energia alternativas, piscinas cobertas e por cobrir, estádios de futebol, museus e casas de música, etc.). Ou seja, despedimentos, falência de empresas, etc. tinham de acontecer.
Nisto tudo, o Governo nada poderia fazer- e, de facto, nada fez: «segui em frente».

Falta de possibilidade de crescimento da economia - outra crítica ao Governo. Mas, o que o Estado português fez durante os últimos 30 anos foi precisamente impor ao País «o Crescimento». O resultado está aí!
Esta crítica é duplamente absurda. Por um lado, foi o próprio «Crescimento» - imposto pelo Estado - que conduziu o País ao estado em que está e, por outro lado, pedir ao Estado para impor ainda mais «Crescimento» não só é repetir «o mesmo» como é pretendê-lo fazer sem dinheiro.
É evidente que este Governo nada pode fazer; mas, isso nem é de sua decisão - não há dinheiro. O Governo «segui em frente».

Ou seja, o que este Governo está a fazer é «seguir em frente». É nisto que o discurso do PM se torna vazio. Tão vazio, que de facto a única coisa que este Governo faz é assegurar que a troika vá garantindo o revolving dos empréstimos impagáveis através do cumprimento das condições que impôs a Portugal para que o fizesse.
O que é impressionante é que ainda há quem o critique disso. Não há volta a dar.

A potencial volta a dar, e que poderia levar a criticar-se o PM, é o facto deste Governo não fazer nada «para além» disso: o «seguir em frente». Este Governo, na praxis da sua intervenção governativa, não tem acrescentado nada - ainda que diga uma ou outra coisa interessante aqui e acolá.

Por exemplo, o Secretário de Estado dos Transportes disse que o País não pode suportar os custos das PPP's, nomeadamente das auto-estradas - e que, veja-se!, as empresas privadas estão sensíveis a isso, diz ele.
Mas, é evidente que estão: elas estão é em risco de perder tudo - pois, é cada vez mais evidente que as PPP's constituem uma dívida «odiosa», ou seja, se forem a Tribunal internacional essas empresas e quem assinou esses contratos poderão, uns perder tudo e outros ir para a cadeia.
Todas as PPP's e todos os Bancos estão sensibilizadíssimos com os coitados dos portugueses que não lhes podem pagar. Veja-se - agora, chegou-lhes o desejo da solidariedade! Até aqui o Governo «vai em frente» - e, podia não ir.

Ou seja, nem nisso o Governo é original, limita-se a «seguir em frente». É por demais evidente que o País está assim, pelas políticas que o Estado foi impondo aos portugueses, nomeadamente a protecção a alguns interesses.
Por exemplo, fiquei com a impressão que o preço da energia eléctrica iria aumentar por efeito da liberalização do mercado, que vai acontecer dentro de pouco tempo - afinal, o que já aconteceu com a liberalização dos combustíveis. Ora, isso é mais de «o mesmo»: ou seja, como já aconteceu com a liberalização dos combustíveis, não vai haver nenhuma liberalização «real» do mercado da electricidade. O mercado dos combustíveis continuou «fechado», num acordo oligopolista existente entre as respectivas empresas, com a bênção do Estado - é o que vai acontecer com a electricidade.

Era aqui, que poderia haver originalidade deste Governo, mas nem isso. O Governo prepara-se para continuar a distinguir os portugueses de 1ª dos portugueses de 2ª e, simultaneamente, a proteger aqueles destes, fazendo com que os portugueses de 2ª continuem a pagar aos portugueses de 1ª os seus direitos-adquiridos independentemente da sua origem (já que todos foram legalizados) - no fundo, é disso que se trata!

É evidente que a Europa está assustada com o Sul da Europa, isso está a levá-la a injectar dinheiro no mercado «à toa». É isso que está a aliviar o Estado português e, inclusive, levá-lo a deixar cair a re-estruturação da economia, de que este País precisa - o que é evidente na forma como as PPP's estão a ser tratadas.
Todavia, este caminho é muito perigoso, é-o para a Europa - que enquanto Civilização parece querer passar definitivamente «à História» - e é-o para Portugal. Mas, isso vai ser «pago» - o que, se continuar a ser pelos mesmos, já não é mau para quem nunca paga!

Por outro lado, também tem as suas vantagens, ajuda a aumentar a probabilidade de «ganhar eleições» - e, os problemas que sejam resolvidos por «quem vier depois».

A OPORTUNIDADE parece que já se foi!

Continuaremos a ver mais de «o mesmo». Afinal, esse só poderia ser o resultado do Estado omnipresente e omnipotente: «segue em frente».

quarta-feira, 28 de março de 2012

A «Vontade» deste Governo

Nos seus discursos, o PM de Portugal tem vindo a salientar o quanto o Estado tem de «libertar» a sociedade civil do seu peso e tem de deixá-la operar. De certo modo isso é uma esperança no sentido do que tenho vindo defendendo: de que Portugal precisa urgentemente de uma democracia liberal.

Todavia, há nisso um contra-senso lógico: é por «Vontade» do PM - cá está o Estado plenipotenciário - que Portugal se deve liberalizar, isto é que o Estado se «retire» dando espaço à cidadania. Sinceramente, duvido que dê certo - porque, o alicerce dessa Vontade é contraditório à sustentabilidade dessa Vontade.
Por outro lado, a própria escada-social por aonde o PM teve de subir para ser «escolhido» para poder-ser eleito (pelo Povo), é ela-própria uma escada-social anti-liberal, caso contrário nem existiria na forma como existe em Portugal. Ou seja, o PM está amarrado a essa escada-social, vai ter de lhe «pagar» o crédito que lhe foi dado, e isso só é possível pela acção anti-liberal do Estado: protegendo os interesses pessoais dos membros dessa escada-social.

Com isso não pretendo dizer que o PM não tenha boas intenções. Mas, uma coisa são as intenções e outras as acções que pode tomar.
O exemplo do BPN e do duplo pagamento à Lusoponte e ainda a demissão do Secretário de Estado da Energia são bons exemplos de como a escada-social está a ter de ser «paga» pelo PM.

A única forma de levar a bom porto a liberalização de Portugal seria tirar o Estado desse caminho. Como?
Simplesmente fazendo como os países liberais o fazem: os órgãos de soberania são eleitos independentemente uns dos outros directamente pelo Povo - pelo menos, o órgão executivo e órgão legislativo. Paralelamente, o sistema judicial deveria possuir intervenção Popular; por exemplo, a culpabilidade (ou não) deveria ser definida pelo Povo (e não pelo Juiz) e a decisão de cada Tribunal devia fazer jurisprudência - ou seja, pelos Tribunais, o Povo passa a ter poder para corrigir os abusos do Estado e, simultaneamente, passa a ter poder legislativo.

Enquanto os deputados forem os boys do PM, ou este o boy dos deputados e dos interesses que por detrás de uns e outros se acantonam, nunca o Estado abrirá mão do seu Poder plenipotenciário - é demasiado bom, para dele se prescindir. Aliás, é com a maior descaramento que em todas as eleições os Partidos peçam a maioria absoluta - o objectivo é mesmo pedir um poder ainda mais ilimitado para si e para o Estado: quero, posso e mando, e, não sou responsabilizável.

É evidente que já sabemos o resultado disso: a Crise, a miséria e a auto-destruição de facto do País pela transformação por portugueses em serviçais dos interesses estrangeiros que compram Portugal.

Note-se que também não estou contra a que os estrangeiros comprem o que querem em Portugal. Isso até é bom. O que está errado é que o Estado português proteja os interesses estrangeiros, dando-lhes protecções que não dá aos portugueses - inclusive subsidiando-os e reduzindo-lhes os impostos a pagar. O estrangeiro que opere em Portugal como qualquer outra empresa portuguesa opera!

Bem..., e aqui é que está outro problema: é que há portugueses de 1ª e portugueses de 2ª. Os portugueses de 1ª possuem os mesmos direitos e protecções dos estrangeiros - uns e outros protegidos pelo Estado; os portugueses de 2ª é que não têm esse direitos, pelo contrário têm de suportá-los, quais direitos adquiridos por aqueles, com o seu suor-e-sangue. Será até de perguntar se esses portugueses de 1ª são de facto portugueses ou se, pelo contrário, não serão também estrangeiros «disfarçados» de portugueses.

Efectivamente, e apesar da manifestação de boa vontade do PM, o PM está a continuar rigorosamente o que os Governos anteriores começaram: fizeram dívidas e mais dívidas e, naturalmente, este pagá-as agora - independentemente do carácter odioso ou não dessa dívidas e através dos portugueses de 2ª, aqueles que pagam sempre tudo, já que os portugueses de 1ª são beneficiários líquidos do Estado (e não seus contribuintes líquidos).

O seu discurso é todavia uma esperança; mas, será? Afinal, cada Governo do passado foi sempre uma esperança!

Um Estado forte é de «barro» (II)

Como afirmámos não está na qualidade dos governantes o facto de um País se tornar desenvolvido ou não. O desenvolvimento de uma País está alicerçado no seu sistema sócio-político, no facto desse sistema sócio-política se poder constituir como alicerce de desenvolvimento ou pelo contrário em alicerce de não-desenvolvimento.

O desenvolvimento sempre esteve associado à possibilidade da Inovação, à possibilidade de coisas Novas, frequentemente surpreendentes, quer nas artes e economia, como nas organizações.
Ora, a Inovação é algo não pré-Determinada, enquanto que a acção do Estado é sempre fonte de pré-Determinação. A Inovação sustenta-se na possibilidade-de-Liberdade, a acção do Estado sustenta-se sempre no bloqueio à possibilidade-de-Liberdade, já que o Estado procura determinar e impor o comportamento das pessoas e organizações no Futuro; mesmo quando o Estado se lança em grandes projectos - com excepção dos relativos à investigação científica - está a realizar algo que foi previamente definido e pré-Determinado, ou seja, nunca se está verdadeiramente perante Inovação.

Paralelamente, porque o Estado consegue congregar toda uma Nação para os seus esforços, quaisquer que sejam, se o Estado «errar», fará com que o esforço de todo uma Nação tenha sido dirigido para tal «erro», ou seja, pode acontecer que não só «sobrem» agora muitos poucos recursos para corrigir tal «erro» como, o próprio «esforço» efectuado para o realizar, poderá ter obrigado essa sociedade a desenvolver uma estrutura societária que agora, após a manifestação do erro cometido, a torna incapaz de reagir a esse erro.

Não é porque a qualidade dos governastes seja menos boa, nem é porque os governantes não tenham boas intenções, que os Estados fortes se tornam «Estados de barro». Eles são-no, porque o Futuro não é previsível e, como tal, nunca é solução colocar os «ovos no mesmo saco».
Face ao Estado, os outros «sacos» são cada um dos cidadãos, são as suas associações nas suas múltiplas formas, etc. Esses «sacos» têm de existir - e só existem, se se puderem manifestar, «ser» - e, simultaneamente, têm de possuir Liberdade para o «serem» com ampla liberdade, inclusive a Liberdade de se oporem ao Estado.

Por exemplo, quando o Estado recolhe impostos para entregar a uma Igreja que, por sua vez, faz caridade, de facto está a interpor-se entre essa Igreja e os cidadãos. Tal tipo de intervenção, pode «à partida» parecer ser boa e, até, ter sido consensualmente adoptada; todavia, o seu resultado será «positivo»? Qual o efeito da Igreja se sentir agora mais dependente do Estado que dos cidadãos, já que passou a ser aquele que a «alimenta»? Qual o sentido de responsabilidade que os crentes desenvolverão face à sua Igreja, se deixam de a poder pressionar directamente, pelos seu próprios actos?
Claro que, à medida que tal intervenção for mostrando pontos-fracos, pode-se ir tomando medidas correctivas; por exemplo, fazendo associar agora a subsidiação do Estado (é que já nem se diz que é subsidiação dos cidadãos, já que estes passaram a «ter de a fazer») com o número de crentes. Tal medida, obrigará a respectiva Igreja a tornar-se de novo mais atenta às preocupações dos crentes - ainda que não diminua a falta de responsabilidade destes perante ela.
Mais ainda, quando o Estado impõe esta relação entre cidadãos e Igreja, acaba por limitar o potencial de criatividade que se pode desenvolver nessa inter-Relação. Tudo ficou pré-Determinado, até é cómodo para ambas as partes; mas, na realidade acontece um esvaziamento nessa relação, ela foi transformada numa «burocracia»: o cidadão passou a ser um «utente», em vez de ser um «cliente» ou um «participante». Tal Igreja deixou de ser «sua», para passara ser uma Igreja do Estado.

Olhemos um outro exemplo. A Fundação Eugénio de Andrade, uma instituição privada, está a promover um projecto denominado «voluntariado de proximidade», no qual voluntários se oferecem a apoiar gratuitamente idosos, estudantes, etc. Tudo indicaria que se estaria perante um esforço realizado pela sociedade civil portuguesa, neste caso a Eugénio de Andrade e seus respectivos benfeitores, no sentido de se auto-organizar para colmatar algumas necessidades societárias.
Todavia não é assim. Duvido mesmo que a Fundação Eugénio de Almeida meta lá algum dinheiro, pois esta iniciativa é subvencionada por Fundos Europeus, portanto dinheiro dos contribuintes europeus obrigados a pagá-lo em Impostos, e pelo Ministério do Emprego e Solidariedade Social de Portugal, portanto dinheiro retirado aos cidadãos portugueses igualmente através de Impostos. Ser a Fundação Eugénio de Almeida a coordenar a acção e a aparecer «à frente» não faz com que este projecto deixe de ser uma PPP (um projecto realizado por privados para ser pago pelos cidadãos portugueses através de Impostos pagos obrigatoriamente), para passar a ser uma iniciativa cívica.

Note-se que a minha preocupação nem se situa no que acontecerá à Igreja e aos cidadãos que a seguem e seus efeitos sobre ambos; nem se trata, da eficiência com que o «voluntariado de proximidade» possa acontecer - ainda que pense que num caso como no outro os resultados serão muito provavelmente contra-producentes.
O que me preocupa - e é disso que tenho tratado - é que quando tal tipo de intervenção é estendida a toda a sociedade, quando o Estado se torna cada vez mais omnipresente e como tal cada vez mais omnipotente - inclusive por pressão dos próprios cidadãos -, a sociedade civil retrai-se cada vez mais, até por comodismo, e passa a ser irresponsável perante o que acontece à sua volta, e, numa situação de Crise, torna-se incapaz de reagir. A única coisa que lhe surge face a qualquer situação mais difícil, pessoal ou social, é clamar pelo Estado - como, quando menino ou menina, era chamar pelos pais. O que me preocupa é o Infantilismo e a Domesticação com que tal tipo-de-intervenção acaba por estruturar pessoas e instituições, e, a «abertura» que isso dá à acção dos Predadores.

Aliás, não é por acaso que o Estado Português não é visto como uma «pessoa de Bem» pelo Povo português, e a corrupção grassam de tal modo que já existe montado todo um sistema legal para a legitimar ou para que não possa ser impedida ou responsabilizada judicialmente - e, tudo isso, perante a «incapacidade de agir» dos cidadãos portugueses. Essa é uma das consequências da Intermediação do Estado em todas as relações societárias, des-estruturando deste modo toda a sociedade civil, ainda por cima colocando-a face a uma entidade toda-poderosa (a única que tem direito «à organização»).

A Civilização anglo-saxónica - que, sendo Ocidental, possui características específicas - soube impedir que o Estado, neste caso o monarca, não só se não tornasse absolutista como se auto-limitasse através de um «equilíbrio de Poder» conseguido pela forma de organização do Estado e pelo tipo de relação que entre este se estabeleceu com a sociedade civil.
Foi este o alicerce «cultural» que formou os EUA, aí aonde a democracia-liberal atingiu o seu estado mais desenvolvido: aí aonde o País (Estado e Povo) é forte, porque a Nação (o Povo) é forte, aí aonde o Estado se sustenta num «equilíbrio de Poderes» que o acondiciona, impedindo-o - pelo menos até agora - de se tornar omnipresente e omnipotente.

Olhando pois para a Civilização anglo-americana, hoje possivelmente mais americana que anglo-saxónica, diria que não se espere mais, em Portugal, por algum D. Sebastião e, ainda menos, pelo Estado que lhe dará a força para ele fazer aquilo que quiser e lhe apetecer. Qualquer um que se diga ser ele - e estão continuamente a aparecer em cada nova eleição -, será sempre um fraude. Sê-lo-á, não porque o próprio não queira ser um D. Sebastião bem intencionado, mas simplesmente porque não pode deixar de ser mais um fraude: não há homem omnisciente e a escada-social que o levou ao Poder vai cobrar-lhe o «empréstimo».

«Deixem a sociedade civil trabalhar», são milhões de cabeças a pensar e a agir, e, simultaneamente, limitem o poder do Estado. O Estado é perigosíssimo; e, caso tome «o freio nos dentes», é certo que só poderá provocar acidentes gravíssimos.

A actual Crise de Portugal é o exemplo de um Estado que «tomou o freio nos dentes». Todavia, tal parece não ser reconhecido - já que, ainda hoje quando se fala de eleições, o que os Partidos continuam a pedir ao Povo é a maioria-absoluta, ou seja, continuam a pedir ainda mais Liberdade para poderem fazer o que querem e lhes apetece, afinal continuam a pedir precisamente aquilo que conduziu Portugal à Crise e à sua auto-destruição (pois é realmente o resultado desta Crise).

domingo, 25 de março de 2012

Um Estado forte é de «barro» (I)

Um Estado omnipotente e omnipresente, um Estado forte, é um Estado que não só acaba por auto-construir os seus pés em barro (porque gera um Povo pobre e incapaz de agir) como se auto-construiu a si-próprio com uma estrutura-de-barro, isto é uma estrutura que facilmente pode CAIR - porque facilmente tomável por «grupos de interesse», inclusive máfias e maçonarias, porque facilmente tomável por «estrangeiros», e, facilmente susceptível à implosão.

A «lógica» subentendida é muito simples: se a «cabeça» é toda-poderosa num dado corpo, basta tomar ou substituir essa cabeça para que o corpo seja tomado.

O mais recente exemplo de um «Estado forte» foi o da URSS, ou é o de Cuba, ainda hoje; o primeiro já implodiu e o segundo irá implodir, e ambos conduziram os seus Povos à mais extrema miséria e «incapacidade de agir».
Um dos mais antigos exemplo, foi o do Império Romano - a sua implosão demorou cerca de dois séculos a acontecer. São séculos de contínua decadência, até «o Conhecimento» é perdido, um dos últimos Imperadores do Império já era analfabeto, algo que se tornará comum no pós-queda do Império por toda a Europa ex-Romana. Este é o resultado de poder-absoluto.

Por oposição, e ainda que se apresente como um Estado forte, o Estado americano é um Estado fraco - um Estado no qual o Presidente da República excepcionalmente consegue atingir, no fim do respectivo mandato, a fasquia dos 35 a 40% de aprovações das suas Iniciativas; ou seja, é um Presidente «acondicionado».
Historicamente, a República Romana é exemplo de um Estado fraco, aonde o topo da hierarquia do Estado, era dividida por dois cônsules eleitos anualmente (em geral, não susceptíveis de se proporem a nova eleição) e os Comandantes de Exército eram eleitos pelo Congresso. Estado mais fraco que este é hoje inimaginável.

Aparentemente, o que acaba de ser dito, pode parecer um contra-senso: como é que «a força» se estrutura sobre a «fraqueza» - já que ninguém duvida que o Estado «acondicionado» dos EUA e o não-Estado da República Romana representam de facto Estados «fortíssimos».
De facto, o que se disso não constitui contra-senso, quer porque fazer «rolar» uma cabeça é sempre muito mais simples que dominar milhões de cabeças, ainda que cada uma delas tenha menos «força» que aquela cabeça única, e, porque a força de um País não está propriamente na Cabeça, mas na associação entre o Povo e o «seu» Estado.

Quanto mais um Estado se torna omnipotente e omnipresente mais esmaga e transforma o respectivo Povo numa multidão de «incapazes de agir». Em certo sentido, dir-se-ia que um tal Estado como que domestica (biologicamente) o seu Povo: quem é «serviçal» é protegido e ascende socialmente, quem não o é, é eliminado ou deixado a si-mesmo num mundo aonde para todos os efeitos é o Estado que manda. Tal Povo torna-se incapaz de reacção, por mais abjecto que seja o esmagamento desse Povo pelo Estado.

Como é logicamente evidente, e a História dá muitos exemplos empíricos de tal ter acontecido, um País nessa condições facilmente cai nas mãos de estrangeiros e de interesses «estranhos», continuando o respectivo Povo a «servi-los» tão fielmente quanto possível, do mesmo modo que já antes «servia» os seus dirigentes «naturais».

Portugal é igualmente um exemplo de um País com um Estado fortíssimo - um Estado que está em tudo-e-todas (omnipresente) e faz o que quer e lhe apetece sem possibilidade de ser responsabilizado (omnipotente); mais forte que isso é impossível. Mas, paralelamente o Povo é miserável (face aos padrões europeus, pobre face aos chineses e rico face à África sub-sariana) e, agora, iletrado pelas novas-oportunidades e certificações - já que em meados do século possuía mais de 50% de analfabetos. É um Povo absolutamente «incapaz de agir» dentro de território nacional - não, que não proteste, mas porque nem a sua voz é ouvida (o Estado controla directamente ou pela subsidiação ou protecção-de-mercado a comunicação social) nem pode fazer absolutamente nada sem que o Estado não lhe caia em cima: subsidiando-o ou não, dizendo como deve ou não fazer e certificando-o, protegendo ou desprotegendo o mercado aonde actua, etc. etc. Até aquilo que noutros países são ONG 's, em Portugal são entidades subsidiadas pelos Estado; até a solidariedade social é intervencionada pelo Estado, a própria Igreja é-o na solidariedade que presta à população e as IPSS não passam de PPP 's.

Portugal é um bom exemplo de um Estado forte e «de barro». Evidentemente, acabou por implodir.

Note-se que tal questão não se coloca no plano da existência de um «bom» ou um «menos bom» Estado. Nem se coloca quanto à qualidade dos seus dirigentes. Trata-se de uma questão que se coloca puramente no plano conceptual - uma forma-de-organização -, já que é ela-própria que irá gerar o seu resultado: crescente fortalecimento do Estado (omnipresença e omnipotência) e crescente esmagamento e «incapacidade de agir» do Povo, aumentando assim significativamente a probabilidade de acontecerem Erros e, de tais Erros, possuírem dimensões gigantescas, capazes de só por si levarem à implosão de um País (Estado e Povo).

No livro recentemente publicado por George Friedman: Os Próximos 100 anos, diz Friedman que a preocupação dos EUA no século XXI não será ganhar «guerras». Com a distância abissal que existe entre os EUA, em absolutamente todos os domínios, em relação aos outros Países, bastar-lhe-á provocar as necessárias confusões para que os seus potenciais opositores não consigam fazer coligações contra Si. Um dos exemplos que dá, é a confusão que lançou entre os árabes com a invasão do Iraque: «agora, matam-se uns aos outros», conclui ele.

Não que esteja de acordo em tudo com a perspectiva do Friedman, mas de facto para os EUA é muito mais fácil lidar com Estados «fortes» do que com Países «fortes». Um Estado «forte» é facílimo de controlar, mais ainda quando se possui força e dinheiro; um País «forte», é praticamente impossível de controlar.
Por isso, e isso não passa de um fraca opinião, os EUA estarão muito mais interessados na expansão da democracia não-liberal - como acontece em Portugal e, em geral, na Europa continental - do que um tipo-de-democracia semelhante à sua: uma democracia liberal. É a democracia liberal que torna os EUA um País fortíssimo - foi esse tipo de democracia que tornou os EUA um País riquíssimo e desenvolvido (e, não o contrário, como muitos dizem!).

Ainda sob esse ponto de vista Friedman tem razão, ainda que a sua análise me pareça muito simplista e «linear». Friedman nem aborda a questão da organização dos Estados e Povos, da organização dos Países, como fonte de mudança do Poder no planeta. De facto, a história de cada Povo é tão forte que o risco de errar é relativamente baixo ao admitir que «o amanhã» de cada País não será muito diferente de o seu «passado» - ou seja, que os Povos têm dificuldade em aprender e a corrigir-se.
Todavia, tal pode não acontecer nos próximos 100 anos: o que seria admitir que a democracia liberal poderia vir a surgir em países de origem não anglo-saxónica - único lugar aonde até agora existe.

Por exemplo, na Índia - apesar de tudo um País de influência anglo-saxónica; se a Índia conseguir implementar e preservar uma democracia liberal, rapidamente a Índia poderá vir a ultrapassar os EUA. Por outro lado, não me parece linear que a China não se desloque também para a democracia liberal, inclusive porque esta é uma forma inteligente de preservar a sua Unidade - na impossibilidade da qual Friedman nega a possibilidade da China se tornar uma super-potência.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Não deixem que Sócrates seja transformado num bode expiatório

Desde há algumas semanas a esta parte, tudo-e-todos caiem sobre Sócrates. Parece até que a Polícia Judiciária e os Tribunais começaram a funcionar, claro: contra Sócrates. A semana passada, já Miguel Sousa Tavares referiu no Expresso que Sócrates estaria a ser apontado «o Culpado», como se todos-os-outros fossem uns santinhos, ludibriados como o Povo português.

Como é evidente,isto não acontece por acaso. Aliás, como a comunicação de massa em Portugal é controlado pelo Estado e pelos poderes acantonados no Estado, esta diabolização de Sócrates foi encomendada - afinal, convém haver um bode expiatório para que os culpados possam passar despercebidos, possa nem ser-lhes exigido responsabilidade alguma pela forma como deixaram o País.

Face ao bode expiatório, o que me preocupa não é nem o bode - que de facto também é culpado - nem os seus amigos, que agora o querem sacrificar num altar que os purifique.
O que me preocupa é que se perca a oportunidade para corrigir aquilo que sistematicamente tem re-conduzido o País e o Povo português à miséria e a uma vida des-Humana. Se com esta Crise não se aproveita a oportunidade para pensar o que está mal, o que conduziu o País a tal situação, de facto não será correcto afirmar, quando a Crise desaparecer, que ela foi superada, porque ela voltará a repertir-se - e, mais uma vez, impedirá Portugal de «arrancar».

Isto já aconteceu pelo menos uma vez. Salazar foi chamado ao poder do Estado para resolver uma Crise provocada pela dívida soberana criada pelo 1º República - afinal, também então os republicanos (e possivelmente a maçonaria) foram os responsáveis pelo surgimento de uma Crise semelhante à actual, e, como tal, ao surgimento do Salazarismo. O certo é que, com trabalho -e muita sorte, já que a guerra em Espanha e na Europa veio ajudá-lo -, Salazar resolveu o problema da dívida soberana e deixou os cofres do País cheio de ouro.
Todavia, e aqui queria chegar, a Crise não foi efectivamente resolvida - ainda que a dívida tenha sido paga e o Estado estivesse rico. A Crise continuou, porque o Povo português continuava a viver na miséria, continuava analfabeto e incompetente (exportando trolhas e criadas), quando ao lado dele o europeu «crescia» (e dava emprego a trolhas e criadas).
De tal modo a Crise não foi resolvida, que voltou a estoirar 40 anos depois por uma questão semelhante: a dívida soberana (cometida pelos mesmos republicanos) - e, deixando o Povo português numa situação semelhante: miserável e iletrado (ainda que certificados de letrados). Como a Europa já não possui poucos lugares para trolhas e criadas, vai-se para África - bem..., é verdade que se qualificou muita gente, gente reconhecida internacionalmente, mas é por demais evidente que alguma coisa de boa teria de acontecer, só se os portugueses fossem «idiotas» é que não teriam minimamente acompanhado os outros povos e a globalização.

Ou seja, não vai ser a resolução da dívida soberana - que aliás parece nem se querer resolver, já que a pretensão é «voltar aos mercados», isto é: pagar a dívida com nova dívida e aumentar a dívida actual - que vai tirar o País da Crise, de uma Crise que na realidade começou desde a queda da monarquia (com certeza, até muito antes) e que perdura hoje, com alguns intervalos nos quais o Povo português viveu «bem» porque vivia de empréstimos.

Depois de tantas experiência políticas e de tantos D. Sebastião 's (Primeiros-Ministros e Presidentes), talvez fosse bom tentar reflectir no que está mal. Só pensar que os políticos são corruptos e incompetentes não chega para explicar o que se tem passado.
Arranjar um bode expiatório é meter a cabeça na areia - ainda que, em termos pessoais, seja a solução para muita gente sair disto tudo pouco beliscada. Mas, para o Povo português será uma desgraça, vai mais uma vez impedir a localização de «o problema»: o que faz com que este Povo, que já foi exemplo mundial, se amarre ao seu atraso e miséria.

Como a arquitectura societária portuguesa amarra Portugal ao atraso e gerou a Crise (IV)

Quando se procura avaliar o «desenvolvimento» - ou «atraso» - de um País, o que interessa não é propriamente o poder ou riqueza do respectivo Estado, mas sim o poder e a riqueza do seu Povo.

Ora, é precisamente quanto ao seu Povo que Portugal continua a ser um País «atrasado». De facto, o «desenvolvimento» que aconteceu após o 25 de Abril foi insignificante - não, porque não houve alguma «melhoria» nas qualidades do Povo português (competências e padrão de vida), mas porque o que aconteceu foi muito abaixo do que aconteceu no mesmo período em grande parte dos países do planeta. Ou seja, de facto Portugal regrediu nos últimos 30 anos - e, quando a Crise chegar ao fim (que «fim» será esse?), a careca estará totalmente destapada.

Todavia, o pós 25 de Abril foi o grito: agora é que é! Claro que não foi, mas porquê?
É, aliás, impressionante como os Fundadores do pós 25 de Abril (já que dos autores e das suas intenções e, até, da oportunidade do acontecimento, ainda há muito para contar) ainda não tenham tido a honestidade de pelo menos se perguntarem a si-mesmos (em público): «o que correu mal?», «aonde erramos?».

Sem dúvida, que o pós 25 de Abril foi uma oportunidade. Todavia, se reflectirmos com cuidado, veremos que essa oportunidade só aconteceu para «o Estado», essa oportunidade não aconteceu para os portugueses: para o Povo e a arraia-miúda (já que há políticos que distinguem o Povo da arraia-miúda).
O Estado, que de facto já não era pobre antes do 25 de Abril, ficou riquíssimo depois do 25 de Abril: dinheiro e património das nacionalizações, dinheiro e património da venda do que antes tinha sido nacionalizado e do que sempre tinha sido do sector público, dinheiro «a rodo» da União, dinheiro de impostos-e-taxas-e-multas a crescer, empréstimos a taxas de juro baixas num valor superior a 200% o PIB português, empréstimos escondidos na forma de PPP's no correspondente a quase metade PIB, etc.

Paralelamente, se se avaliar o rendimento dos portugueses depois dos impostos (de todos os impostos, e não apenas daqueles que «formalmente» são definidos como impostos) estou convicto que tal rendimento desceu em valor absoluto relativamente a 1973 (ante do 25 de Abril) e, em valor relativo - em comparação com o que se terá passado no resto da UE -, deverá ter havido uma regressão excepcionalmente elevada. Então, porque é que os portugueses não sentem isso?
Porque o Estado «tomou conta deles» - isto é, tirou-lhes rendimentos para lho devolver em serviços controlados pelo Estado, ou seja impediu que o crescimento dos seus rendimentos fossem transformados em aumento da sua capacidade-de-Liberdade e de auto-decisão sobre o seu próprio futuro e dos seus filhos -, e, simultaneamente, promoveu o seu endividamento. É por isso que, ainda não tendo o Estado começado a pagar a sua dívida soberana, a miséria já se abate sobre quase-todo o Povo e arraia-miúda portuguesas - é que «a devolução» aos portugueses dos rendimentos que lhes são retirados pelo Estado em impostos (e demais rendas que têm de pagar às empresas-protegidas) já não acontece na proporção que vinha acontecendo; simultaneamente, como os impostos ainda aumentaram mais, nem os empréstimos contraídos pelos portugueses conseguem agora ser pagos.
Não bastasse isso, como «quem mandava era o Estado», o País desenvolveu a economia que interessava ao Estado: ou seja, hoje Portugal possui uma economia que, em geral, não só não serve para nada como ainda vive de rendas que têm de ser pagas pelo Povo e pela arraia-miúda. Concluindo: empresas fecham todos os dias, o desemprego aumenta e a miséria é omnipresente, gerando agressividade e criminalidade.

Os Fundadores de «o Portugal pós 25 de Abril» foi isto que Fundaram.

De algum modo a culpa nem é deles - ainda que eles e as suas famílias tenham ganho muito com isso. Eles foram pessoas bem intencionadas - como aliás o foram Hitler, Salazar e Estaline ou Mao. Eles, assim como Hitler, Salazar e Estaline ou Mao, apenas acreditaram que tinham «a Verdade» e que tinham «a Moral». Acreditavam tanto nisso que, em todas as eleições, pediam a maioria absoluta, para poderem fazer o que queriam e lhes apetecesse: já que, afinal, o que lhes apetecia e queriam era «o Bem» do Povo.

Este é que foi «o problema», um problema que começou muito antes do 25 de Abril, que durou o tempo todo do salazarismo e continuou pós 25 de Abril. O «O problema» é que em Portugal só o «Estado pode» - em Portugal, não há cidadãos, aquilo que lhes corresponde noutros países são em Portugal «servidores do Estado-português». Aliás, o cidadão e a cidadania são tão mal compreendidos em Portugal, que cidadania é «servir o Estado», é ser bem-comportado, é obedecer cegamente à Lei, mesmo quando esta é de lesa-majestade ou os Tribunais são bloqueados para que não funcionem (há dinheiro para tudo, menos para que a Judiciária e os Tribunais funcionem).

Portugal, quer no Salazarismo como pós 25 De Abril, como a Alemanha de Hitler ou a URSS de Estaline ou a China de Mao, possuem em comum um Estado omnipresente e omnipotente. O resultado está à vista: o Povo está na miséria, o Estado-endividado a cavalo nesse Povo, o País destruído pelo próprio Estado.

A «imagem» do índice de prostituição de um País revela o estado de auto-destruição a que um Povo conduziu o seu próprio País. Hoje, nos filmes, a mulher russa é apresentada no papel de prostituta, no tempo da guerra de Espanha a ideia era que as espanholas eram as prostitutas. Quando à mulher portuguesa, ela tem sido apresentada como doméstica, criada; mas não tarda será apresentada como prostituta.
Foi a isso que os Fundadores conduziram este País e este «nobre» Povo.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Como a arquitectura societária portuguesa amarra Portugal ao atraso e gerou a Crise (III)

«Desenvolvimento» e «atraso» - como civilizado e bárbaro - sempre foram conceitos manuseados pelos Povos para se auto-definirem a si-mesmo face aos outros ou vice-versa. O seu uso não é pois estranho, ainda que os critérios para a sua definição sejam diversos e não uniformes.

Uma primeira dificuldade diz respeito àquilo para que se aponta quando nos referimos a «desenvolvimento». Aponta-se ao Povo, às pessoas em concreto, ou ao respectivo Estado?

Por exemplo, o Povo judeu é, quanto a mim, o Povo mais «desenvolvido» do mundo, é-o há séculos, porque em média os judeus possuem altos padrões-de-vida quer a nível material como intelectual. Como um amigo meu dizia: todos os judeus sabem ler-e-escrever desde 2000 anos antes da nossa era, afim de poderem ler «a sua» Bíblia. Todavia, os judeus durante séculos não possuíam Estado nem território, viviam e vivem no território de «os outros», e só recentemente possuem um Estado, o Estado de Israel no qual vive uma pequeníssima percentagem da comunidade judaica. Trata-se de uma Cultura forte e rica.
Todavia, se falássemos da Rússia e, depois, da URSS,(ou ainda da China), estaríamos a tratar de um Povo que em média vive miseravelmente ainda que o seu Estado fosse forte e rico.

Entre essas duas situações, podemos considerar os EUA, mais próximo da comunidade judaica, e a Alemanha pós-Bismarck, mais próxima da Rússia. Enquanto os EUA são um território «ocupado» e «continuamente ocupado» por Povos de todo o mundo cujo Estado se esforça para que cada cidadão possa preservar a sua Liberdade «de ser e de estar», intervindo o menos possível na sua vida, na Alemanha «o exército cavalga o Povo» - com se diz -, ainda que «o cavalgasse» mais ontem que hoje.
São elevadíssimos os padrões-de-vida das populações americana e alemãs e, simultaneamente, os respectivos Estados são fortes, ainda que o sejam de forma diferente: na Alemanha a força do Estado sustenta-se no servilismo ao Estado do povo alemão, enquanto nos EUA a força do Estado depende da independência do cidadão americano relativamente ao Estado.

Todavia, apesar das diferenças entre todos estes exemplos, todas elas possuem em comum o facto das respectivas elites e Povo estarem unidos por um bem-comum: a Nação (Estado e Povo), pelo que a acção das elites (eleitas ou não), ainda que possa ser desastrosa, é em geral tomada tendo em vista «o Bem» da Nação. Ou seja, excepcionalmente a corrupção tem aqui lugar, e, quando acontece, os sistemas judiciais funcionam com eficácia.

Há pois um terceiro tipo de Países: aquele aonde o Estado foi tomado por uma elite a-nacionalista - quer o tenha tomado por eleições (como é evidente segundo sistemas eleitorais devidamente condicionados) ou por algum tipo de sistema ditatorial.
Nestes Países, a que corresponde uma dado tipo de Estado, o Estado e o respectivo Povo encontram-se em lados relativamente opostos, já que o Estado, e as elites que dele tomaram posse, o que pretendem é servir-se desse poder para explorarem esse Povo em seu benefício.

Uma grande parte dos Países estão nesta situação: as elites «tratam» do seu Povo, através do Estado previamente tomado, mais em seu benefício do que no da Nação (Estado e Povo) - no fundo, como que tratando desse Povo como se trata de uma galinha: trata-se dela para que continue a pôr ovos, nomeadamente trata-se dela para que ponha ovos com crescente produtividade.
Neste tipo de Países, as pessoas do Povo não possuem na prática direito à Humanidade; apenas as pessoas que constituem a elite possuem esse direito. As pessoas do Povo são como que servos do Estado, aí aonde se as elites se acantonam - e, tudo isso, «dentro da Lei».

Enfim, quando se olha muitos dos indicadores que tentam medir o desenvolvimento», muito daquilo que se acaba de apontar, não consegue ser medido. Frequentemente só quando emerge uma Crise é que se tem tendência a olhar retrospectivamente para se descobrir o que causou tal Crise.

Mesmo os «Países servis», aqueles nos quais o Estado olha e trata os seus cidadãos como servos de Si-próprio, excepcionalmente ocorrerão manifestações se as elites gerirem o seu poder sobre os servos com o necessário cuidado - aliás, com excepção de alguns «espertalhões», servos e elite podem nem se aperceber do carácter servil da inter-Relação que criaram entre elites e Povo. Por exemplo, algumas - algumas - sociedades socialistas, melhor dizendo: ditas socialistas, são exemplo típico deste tipo de inter-relação Estado-Povo; Portugal é disso um bom exemplo: o de um Estado e de uma elite (a-nacionalista) que «tratam de» o Povo português como um dono trata as suas galinhas num galinheiro.

Ora, medir o desenvolvimento - ou atraso - de galinhas é diferente de medir o desenvolvimento - ou atraso - de Povos, de seres que são Humanos (e não «animais»). Infelizmente, o que muitas vezes acontece é que se mede o desenvolvimento - ou atraso - de seres que são Humanos, não «enquanto seres-humanos», mas como se tratassem «de animais».
De algum modo, ainda que não tenha sido essa a intenção, foi isso que António Barreto acabou por fazer no seu programa sobre o estado de desenvolvimento de Portugal - e, esta Crise só o vem confirmar.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Como a arquitectura societária portuguesa amarra Portugal ao atraso e gerou a Crise (II)

Falar de «arquitectura societária», como causa de atraso e geradora de Crise, parece tratar-se mais de palavreado do que de uma tentativa séria para caracterizar uma dada situação social.

De facto, não é assim. As sociedades humanas são seres «Vivos» - assim como os seres-humanos que as compõem; isto é, são seres que «não São» (como seria o caso de uma «pedra»), já que são seres que têm de lutar continuamente por se auto-preservar a si-mesmos nas suas «Identidades». A Vida, nas formas de vida que se conhecem, e as comunidades de seres vivos, representam sistemas dinâmicos de autopoiése. Ou seja, não é propriamente correcto dizer que uma sociedade «É» - por exemplo, atrasada ou desenvolvida; o que seria correcto é dizer que essa sociedade «gera» continuamente aquilo que é a cada instante: atraso ou desenvolvimento.
É ainda nesse sentido, porque se trata de sistemas dinâmicos - nunca a mesma água passa debaixo de uma ponte -, que uma sociedade, ainda que atrasada e gerando atraso, pode gerar Crises.

Por outro lado, ainda que se trata de sistemas dinâmicos, esses sistemas possuem uma dada arquitectura, sobre a qual «as coisas acontecem».
Por exemplo, Dawkins reduziu a Vida e o comportamento dos seres-vivos ao gene egoísta; Freud reduziu o homem à sexualidade e, mais recentemente, René Girad reduziu o comportamento das sociedades humanas à dinâmica de «a Imitação» - aquilo a que eu denomino de Imitação-mimética, já que no processo referido por René Girard o que explica o comportamento das sociedades humanas não é propriamente o processo de Imitação, mas o seu resultado: o Mimetismo, o comportamento mimético que, ao desenvolve-se entre pessoas em comunicação, gera consequências comportamentais que explicam razoavelmente bem algumas dinâmicas sociais.
Todos eles, Dawkins, Freud e Girard, são excepcionalmente persuasivos e coerentes nas suas interpretações - e, de facto, não há ser-humano ou sociedade humana aonde as suas interpretações não possam ser aplicadas. Ou seja, aquilo para o qual eles apontam (o gene egoísta, o imperativo reprodutivo e a Imitação-mimética), pode ser visto como uma «arquitectura» ou uma geometria - sobre (e segundo) a qual o ser-humano e as sociedades humanas «acrescentam» coisas, e se, por acaso, aquilo que é «acrescentado» vai contra essa arquitectura ou geometria, tal «acrescento» tem poucas hipóteses de se preservar e ainda menos de, sobre ele, vir a acrescentar-se novo «acrescento». É como-se tal arquitectura (no seu tipo específico de constituição, estrutura e organização) fosse Princípio-de.

Igualmente por isso, porque se está perante sistemas dinâmicos, inseridos no Tempo, «aquilo que se segue», mesmo na sua contingência, está ligada ao «seu» respectivo Passado - e, muita coisa desse Passado, opera como uma arquitectura que acondiciona fortemente «o Futuro possível» (mesmo se esse Futuro se revelar como algo aleatório-e-indeterminado).

Ou seja, falar de uma arquitectura (ou geometria) societária que preserva «atrasados» Portugal e os portugueses e capaz de gerar Crises, tem toda a razão de ser. E, excepcionalmente, ou mesmo nunca, uma Revolução é capaz de a alterar - inclusive, porque dela raramente se tem Consciência, e, quando se tem, dificilmente as dinâmicas sociais em curso se conseguem furtar a ela.

Todavia, essa conclusão apenas nos lança num «mar» de possibilidades. Como caracterizar essa arquitectura societária, já que as sociedades humanas são excepcionalmente complexas?
De facto, nem tem de acontecer necessariamente isso. Dawkins, Freud e Girard acabaram por apontar sistemas dinâmicos muito «simples» com os quais se pode interpretar grande parte do comportamento humano e das suas sociedades. Trata-se de «arquitecturas Fundadoras», porque é, segundo elas e sobre elas, que se acrescentam coisas Novas - coisas que, não se reduzindo a elas - e, esse é o erro de Dawkins, Freud e, em certo sentido, de Girard, - são acondicionadas por essas arquitecturas Fundadoras, quer na respectiva «possibilidade» como no que «será» o Novo que surge. Ou seja, o Novo, que surge, ainda que acondicionado pelo seu Passado e, como tal, ainda que justificado (nem que seja como história) por esse Passado, não se reduz a ele - todavia, sem dúvida que esse Passado existe, e sem dúvida que ele acondiciona a «possibilidade de Futuro».

«Que arquitectura será essa?» - que preserva atrasados Portugal e os portugueses.

Como é evidente não será específica a Portugal e aos portugueses. O que demais há no planeta, são sociedades humanas atrasadas. E o que de mais há no planeta são teorias e experimentos políticos com vista a fazer descolar essas sociedades dos seus seculares atrasos, em especial desde finais do século XIX. Infelizmente, os seus resultados não têm sido grande coisa - alguns, como o comunismo, lançaram milhões de pessoas na miséria, pelo menos numa miséria relativamente semelhante àquela de aonde tinham saído e, outros, como a «ajuda ao desenvolvimento» ou, no caso da União Europeia, de «ajuda à convergência», acabaram por ser dinheiro lançado fora pela janela .

É evidente que o «atraso» se pode definir olhando um País em si-mesmo: o antes e o agora. Todavia, sendo as sociedades humanas sistemas dinâmicos em inter-acção entre si, em especial desde meados do século passado com a globalização, o «atraso» ou o «desenvolvimento» de um País só possui significado «real» se for definido face aos outros Países.
Por exemplo, António Barreto fez um programa sobre Portugal e os portugueses, aonde mostra o quanto Portugal se alterou «para melhor» nos últimos 30 anos - tal que, até se torna incompreensível que a actual Crise tenha acontecido! Se nos «desenvolvemos» tanto, já devíamos ter des-colado - mas não; está tudo-na-mesma ainda que António Barreto diga o contrário. Ou seja, não nos podemos admirar que tenhamos auto-estradas, carros, cidades «crescidas», computadores, imigrantes e emigrantes, universidades e doutorados, indústria e serviços, etc. - todos os Países, ou quase-todos têm isso «hoje em dia». A avaliação do «estado» de desenvolvimento de Portugal e dos portugueses está na posição relativa de Portugal face aos outros países: piorou, manteve-se ou melhorou? O padrão de vida dos portugueses aproximou-se do dos alemães, ou aproximou-se do dos angolanos?

Por outro lado, com a globalização a própria avaliação do «atraso» de um Povo tornou-se mais difícil.
Por exemplo, depois da independência de Angola, o país foi visitado por uma delegação presidencial de um país africano que ficou admirado com o parque industrial existemte em Angola. Alguns dirigentes angolanos sentiram-se «orgulhosos» de si-próprios com «o desenvolvimento» visto pelos outros no seu País. De facto, tal «desenvolvimento» seria «real» ou apenas uma ficção? É evidente que era apenas uma ficção, já que tal parque industrial foi construído e operado por estrangeiros, já que os angolanos nem possuíam - à data - competência para o colocar a funcionar.

No exemplo dado, está-se perante o caso de uma ex-colónia, de um país ocupado - situação sobre a qual há imensa reflexão. Todavia, com a globalização, os países podem ser «ocupados» de outra maneira: o estrangeiro entra com o seu dinheiro e a sua tecnologia, opera-a e retira daí aquilo que o levou a instalar-se nesse território. Ou seja, pode tratar-se de uma situação muito semelhante à da relação entre colonizador e colono, com a excepção - mais teórica que real - de que o País hospedeiro controla este processo.
É evidente que a «intenção» quer dos governos como do investimento estrangeiro pode ser «boa» - algo que à partida é de duvidar numa relação colonial. Todavia, uma coisa é a «intenção» e outra, que pode ser bem diferente, é o que daí resulta. Ou seja, será que com o investimento estrangeiro ocorreu alguma transferência de conhecimento para os nacionais? Será que os salários médios dos nacionais aumentaram por força de «a qualidade» desse investimento ou, manteve-se idêntica ou, mesmo, diminuiu? Será que o investimento estrangeiro «vive» no mesmo país dos nacionais ou, pelo contrário, passou a viver num outro país: num país aonde paga menos impostos que os nacionais, possui uma burocracia especial para o atender, possui subvenções pagas pelos próprios nacionais para aí se instalar e «viver», etc.
Ou seja, com a globalização passou de facto a haver a possibilidade de existência daquilo que podemos denominar de Novo País - «Novo» ..., era o nome que frequentemente se dava às novas terras que se descobriam (Nova Holanda, por exemplo) ou às novas cidades que aí se fundavam (Nova Lisboa, por exemplo). Assim por exemplo, em Portugal pode existir o «velho» Portugal, aí aonde vivem os portugueses e, ao seu lado, existir o «Novo Portugal», aí aonde existem os estrangeiros com os seus investimentos. Os dois Países, ainda que não se distinguindo fisicamente entre si, de facto podem ser profundamente diferentes - em geral, o Novo Portugal possui Leis e regulamentos diferentes dos que vigoram em Portugal. Uma da consequências disso é, por exemplo, que em geral os portugueses dizem mal do seu país e dos seus governantes, no limite imigram, enquanto os estrangeiros dizem que o país é uma maravilha: o mais sossegadinho da Europa, comida boa e empregados baratos e uma governação competente, sempre pronta a «ajudar» a resolver os problemas - portanto, tudo bom e com boas taxas-de-retorno.

Num quadro destes, infelizmente não tanto hipotético como deveria ser, avaliar o «atraso» ou «desenvolvimento» de Portugal, deve pelo menos merecer a distinção entre o que se está a avaliar: Portugal ou o «Novo Portugal». É que, nessa avaliação, a média ou a mediana acabam por indicar muito pouco - pois, podemos estar perante a situação em que a refeição média de duas pessoas foi de meio-frango quando de facto uma delas comeu um frango inteiro e a outra ficou com fome porque não comeu nada.

Feitas essas observações, algo a que António Barreto não pôde avaliar no seu trabalho, olhemos para Portugal - não para «o Novo Portugal», até porque esse pode estar hoje aqui e amanhã noutro país qualquer, deixando-nos «esqueletos» que nem sabemos colocar a funcionar. Olhemos para o Portugal cuja arquitectura o faz preservar-se atrasado e olhemos para os portugueses que têm de pagar a Crise - para uma Crise cujos beneficiários terão sido muito mais os habitantes do Novo Portugal do que os habitantes de Portugal, os portugueses.