quinta-feira, 29 de março de 2012

O discurso do PM: «segue-se em frente»

Ontem o PM deu uma conferência na TVI. Mais tarde o seu Secretário de Estado dos Transportes esteve num programa na SIC.

Sem dúvida que o PM e a sua equipe têm um discurso coerente e interessante. O que me admiro, é que tal discurso possa causar espanto - ou que indicie mesmo alguma mudança de Governação face ao que até aqui se vinha fazendo.

De facto, nada do que está a ser dito e feito pode deixar de ser assim. Portugal meteu-se num buraco: uma estrutura económica e social ineficientes e uma Dívida impossível de pagar.

Ou seja, a austeridade, que todos querem criticar ao Governo, é algo impossível de não acontecer. Aonde está o dinheiro para pagar o modelo-de-gastos que o Estado vinha impondo ao País nos últimos 30 anos? Claro, não existe! Então, como não haver austeridade? É óbvio que tem de haver austeridade, como é óbvio que não foi este Governo que a impôs: pura e simplesmente, ela teria de acontecer.
Daí, consequentemente a falta de mercado para aquilo que era o mercado-tradicional português (auto-estradas, energia alternativas, piscinas cobertas e por cobrir, estádios de futebol, museus e casas de música, etc.). Ou seja, despedimentos, falência de empresas, etc. tinham de acontecer.
Nisto tudo, o Governo nada poderia fazer- e, de facto, nada fez: «segui em frente».

Falta de possibilidade de crescimento da economia - outra crítica ao Governo. Mas, o que o Estado português fez durante os últimos 30 anos foi precisamente impor ao País «o Crescimento». O resultado está aí!
Esta crítica é duplamente absurda. Por um lado, foi o próprio «Crescimento» - imposto pelo Estado - que conduziu o País ao estado em que está e, por outro lado, pedir ao Estado para impor ainda mais «Crescimento» não só é repetir «o mesmo» como é pretendê-lo fazer sem dinheiro.
É evidente que este Governo nada pode fazer; mas, isso nem é de sua decisão - não há dinheiro. O Governo «segui em frente».

Ou seja, o que este Governo está a fazer é «seguir em frente». É nisto que o discurso do PM se torna vazio. Tão vazio, que de facto a única coisa que este Governo faz é assegurar que a troika vá garantindo o revolving dos empréstimos impagáveis através do cumprimento das condições que impôs a Portugal para que o fizesse.
O que é impressionante é que ainda há quem o critique disso. Não há volta a dar.

A potencial volta a dar, e que poderia levar a criticar-se o PM, é o facto deste Governo não fazer nada «para além» disso: o «seguir em frente». Este Governo, na praxis da sua intervenção governativa, não tem acrescentado nada - ainda que diga uma ou outra coisa interessante aqui e acolá.

Por exemplo, o Secretário de Estado dos Transportes disse que o País não pode suportar os custos das PPP's, nomeadamente das auto-estradas - e que, veja-se!, as empresas privadas estão sensíveis a isso, diz ele.
Mas, é evidente que estão: elas estão é em risco de perder tudo - pois, é cada vez mais evidente que as PPP's constituem uma dívida «odiosa», ou seja, se forem a Tribunal internacional essas empresas e quem assinou esses contratos poderão, uns perder tudo e outros ir para a cadeia.
Todas as PPP's e todos os Bancos estão sensibilizadíssimos com os coitados dos portugueses que não lhes podem pagar. Veja-se - agora, chegou-lhes o desejo da solidariedade! Até aqui o Governo «vai em frente» - e, podia não ir.

Ou seja, nem nisso o Governo é original, limita-se a «seguir em frente». É por demais evidente que o País está assim, pelas políticas que o Estado foi impondo aos portugueses, nomeadamente a protecção a alguns interesses.
Por exemplo, fiquei com a impressão que o preço da energia eléctrica iria aumentar por efeito da liberalização do mercado, que vai acontecer dentro de pouco tempo - afinal, o que já aconteceu com a liberalização dos combustíveis. Ora, isso é mais de «o mesmo»: ou seja, como já aconteceu com a liberalização dos combustíveis, não vai haver nenhuma liberalização «real» do mercado da electricidade. O mercado dos combustíveis continuou «fechado», num acordo oligopolista existente entre as respectivas empresas, com a bênção do Estado - é o que vai acontecer com a electricidade.

Era aqui, que poderia haver originalidade deste Governo, mas nem isso. O Governo prepara-se para continuar a distinguir os portugueses de 1ª dos portugueses de 2ª e, simultaneamente, a proteger aqueles destes, fazendo com que os portugueses de 2ª continuem a pagar aos portugueses de 1ª os seus direitos-adquiridos independentemente da sua origem (já que todos foram legalizados) - no fundo, é disso que se trata!

É evidente que a Europa está assustada com o Sul da Europa, isso está a levá-la a injectar dinheiro no mercado «à toa». É isso que está a aliviar o Estado português e, inclusive, levá-lo a deixar cair a re-estruturação da economia, de que este País precisa - o que é evidente na forma como as PPP's estão a ser tratadas.
Todavia, este caminho é muito perigoso, é-o para a Europa - que enquanto Civilização parece querer passar definitivamente «à História» - e é-o para Portugal. Mas, isso vai ser «pago» - o que, se continuar a ser pelos mesmos, já não é mau para quem nunca paga!

Por outro lado, também tem as suas vantagens, ajuda a aumentar a probabilidade de «ganhar eleições» - e, os problemas que sejam resolvidos por «quem vier depois».

A OPORTUNIDADE parece que já se foi!

Continuaremos a ver mais de «o mesmo». Afinal, esse só poderia ser o resultado do Estado omnipresente e omnipotente: «segue em frente».

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