quinta-feira, 15 de março de 2012

Como a arquitectura societária portuguesa amarra Portugal ao atraso e gerou a Crise (II)

Falar de «arquitectura societária», como causa de atraso e geradora de Crise, parece tratar-se mais de palavreado do que de uma tentativa séria para caracterizar uma dada situação social.

De facto, não é assim. As sociedades humanas são seres «Vivos» - assim como os seres-humanos que as compõem; isto é, são seres que «não São» (como seria o caso de uma «pedra»), já que são seres que têm de lutar continuamente por se auto-preservar a si-mesmos nas suas «Identidades». A Vida, nas formas de vida que se conhecem, e as comunidades de seres vivos, representam sistemas dinâmicos de autopoiése. Ou seja, não é propriamente correcto dizer que uma sociedade «É» - por exemplo, atrasada ou desenvolvida; o que seria correcto é dizer que essa sociedade «gera» continuamente aquilo que é a cada instante: atraso ou desenvolvimento.
É ainda nesse sentido, porque se trata de sistemas dinâmicos - nunca a mesma água passa debaixo de uma ponte -, que uma sociedade, ainda que atrasada e gerando atraso, pode gerar Crises.

Por outro lado, ainda que se trata de sistemas dinâmicos, esses sistemas possuem uma dada arquitectura, sobre a qual «as coisas acontecem».
Por exemplo, Dawkins reduziu a Vida e o comportamento dos seres-vivos ao gene egoísta; Freud reduziu o homem à sexualidade e, mais recentemente, René Girad reduziu o comportamento das sociedades humanas à dinâmica de «a Imitação» - aquilo a que eu denomino de Imitação-mimética, já que no processo referido por René Girard o que explica o comportamento das sociedades humanas não é propriamente o processo de Imitação, mas o seu resultado: o Mimetismo, o comportamento mimético que, ao desenvolve-se entre pessoas em comunicação, gera consequências comportamentais que explicam razoavelmente bem algumas dinâmicas sociais.
Todos eles, Dawkins, Freud e Girard, são excepcionalmente persuasivos e coerentes nas suas interpretações - e, de facto, não há ser-humano ou sociedade humana aonde as suas interpretações não possam ser aplicadas. Ou seja, aquilo para o qual eles apontam (o gene egoísta, o imperativo reprodutivo e a Imitação-mimética), pode ser visto como uma «arquitectura» ou uma geometria - sobre (e segundo) a qual o ser-humano e as sociedades humanas «acrescentam» coisas, e se, por acaso, aquilo que é «acrescentado» vai contra essa arquitectura ou geometria, tal «acrescento» tem poucas hipóteses de se preservar e ainda menos de, sobre ele, vir a acrescentar-se novo «acrescento». É como-se tal arquitectura (no seu tipo específico de constituição, estrutura e organização) fosse Princípio-de.

Igualmente por isso, porque se está perante sistemas dinâmicos, inseridos no Tempo, «aquilo que se segue», mesmo na sua contingência, está ligada ao «seu» respectivo Passado - e, muita coisa desse Passado, opera como uma arquitectura que acondiciona fortemente «o Futuro possível» (mesmo se esse Futuro se revelar como algo aleatório-e-indeterminado).

Ou seja, falar de uma arquitectura (ou geometria) societária que preserva «atrasados» Portugal e os portugueses e capaz de gerar Crises, tem toda a razão de ser. E, excepcionalmente, ou mesmo nunca, uma Revolução é capaz de a alterar - inclusive, porque dela raramente se tem Consciência, e, quando se tem, dificilmente as dinâmicas sociais em curso se conseguem furtar a ela.

Todavia, essa conclusão apenas nos lança num «mar» de possibilidades. Como caracterizar essa arquitectura societária, já que as sociedades humanas são excepcionalmente complexas?
De facto, nem tem de acontecer necessariamente isso. Dawkins, Freud e Girard acabaram por apontar sistemas dinâmicos muito «simples» com os quais se pode interpretar grande parte do comportamento humano e das suas sociedades. Trata-se de «arquitecturas Fundadoras», porque é, segundo elas e sobre elas, que se acrescentam coisas Novas - coisas que, não se reduzindo a elas - e, esse é o erro de Dawkins, Freud e, em certo sentido, de Girard, - são acondicionadas por essas arquitecturas Fundadoras, quer na respectiva «possibilidade» como no que «será» o Novo que surge. Ou seja, o Novo, que surge, ainda que acondicionado pelo seu Passado e, como tal, ainda que justificado (nem que seja como história) por esse Passado, não se reduz a ele - todavia, sem dúvida que esse Passado existe, e sem dúvida que ele acondiciona a «possibilidade de Futuro».

«Que arquitectura será essa?» - que preserva atrasados Portugal e os portugueses.

Como é evidente não será específica a Portugal e aos portugueses. O que demais há no planeta, são sociedades humanas atrasadas. E o que de mais há no planeta são teorias e experimentos políticos com vista a fazer descolar essas sociedades dos seus seculares atrasos, em especial desde finais do século XIX. Infelizmente, os seus resultados não têm sido grande coisa - alguns, como o comunismo, lançaram milhões de pessoas na miséria, pelo menos numa miséria relativamente semelhante àquela de aonde tinham saído e, outros, como a «ajuda ao desenvolvimento» ou, no caso da União Europeia, de «ajuda à convergência», acabaram por ser dinheiro lançado fora pela janela .

É evidente que o «atraso» se pode definir olhando um País em si-mesmo: o antes e o agora. Todavia, sendo as sociedades humanas sistemas dinâmicos em inter-acção entre si, em especial desde meados do século passado com a globalização, o «atraso» ou o «desenvolvimento» de um País só possui significado «real» se for definido face aos outros Países.
Por exemplo, António Barreto fez um programa sobre Portugal e os portugueses, aonde mostra o quanto Portugal se alterou «para melhor» nos últimos 30 anos - tal que, até se torna incompreensível que a actual Crise tenha acontecido! Se nos «desenvolvemos» tanto, já devíamos ter des-colado - mas não; está tudo-na-mesma ainda que António Barreto diga o contrário. Ou seja, não nos podemos admirar que tenhamos auto-estradas, carros, cidades «crescidas», computadores, imigrantes e emigrantes, universidades e doutorados, indústria e serviços, etc. - todos os Países, ou quase-todos têm isso «hoje em dia». A avaliação do «estado» de desenvolvimento de Portugal e dos portugueses está na posição relativa de Portugal face aos outros países: piorou, manteve-se ou melhorou? O padrão de vida dos portugueses aproximou-se do dos alemães, ou aproximou-se do dos angolanos?

Por outro lado, com a globalização a própria avaliação do «atraso» de um Povo tornou-se mais difícil.
Por exemplo, depois da independência de Angola, o país foi visitado por uma delegação presidencial de um país africano que ficou admirado com o parque industrial existemte em Angola. Alguns dirigentes angolanos sentiram-se «orgulhosos» de si-próprios com «o desenvolvimento» visto pelos outros no seu País. De facto, tal «desenvolvimento» seria «real» ou apenas uma ficção? É evidente que era apenas uma ficção, já que tal parque industrial foi construído e operado por estrangeiros, já que os angolanos nem possuíam - à data - competência para o colocar a funcionar.

No exemplo dado, está-se perante o caso de uma ex-colónia, de um país ocupado - situação sobre a qual há imensa reflexão. Todavia, com a globalização, os países podem ser «ocupados» de outra maneira: o estrangeiro entra com o seu dinheiro e a sua tecnologia, opera-a e retira daí aquilo que o levou a instalar-se nesse território. Ou seja, pode tratar-se de uma situação muito semelhante à da relação entre colonizador e colono, com a excepção - mais teórica que real - de que o País hospedeiro controla este processo.
É evidente que a «intenção» quer dos governos como do investimento estrangeiro pode ser «boa» - algo que à partida é de duvidar numa relação colonial. Todavia, uma coisa é a «intenção» e outra, que pode ser bem diferente, é o que daí resulta. Ou seja, será que com o investimento estrangeiro ocorreu alguma transferência de conhecimento para os nacionais? Será que os salários médios dos nacionais aumentaram por força de «a qualidade» desse investimento ou, manteve-se idêntica ou, mesmo, diminuiu? Será que o investimento estrangeiro «vive» no mesmo país dos nacionais ou, pelo contrário, passou a viver num outro país: num país aonde paga menos impostos que os nacionais, possui uma burocracia especial para o atender, possui subvenções pagas pelos próprios nacionais para aí se instalar e «viver», etc.
Ou seja, com a globalização passou de facto a haver a possibilidade de existência daquilo que podemos denominar de Novo País - «Novo» ..., era o nome que frequentemente se dava às novas terras que se descobriam (Nova Holanda, por exemplo) ou às novas cidades que aí se fundavam (Nova Lisboa, por exemplo). Assim por exemplo, em Portugal pode existir o «velho» Portugal, aí aonde vivem os portugueses e, ao seu lado, existir o «Novo Portugal», aí aonde existem os estrangeiros com os seus investimentos. Os dois Países, ainda que não se distinguindo fisicamente entre si, de facto podem ser profundamente diferentes - em geral, o Novo Portugal possui Leis e regulamentos diferentes dos que vigoram em Portugal. Uma da consequências disso é, por exemplo, que em geral os portugueses dizem mal do seu país e dos seus governantes, no limite imigram, enquanto os estrangeiros dizem que o país é uma maravilha: o mais sossegadinho da Europa, comida boa e empregados baratos e uma governação competente, sempre pronta a «ajudar» a resolver os problemas - portanto, tudo bom e com boas taxas-de-retorno.

Num quadro destes, infelizmente não tanto hipotético como deveria ser, avaliar o «atraso» ou «desenvolvimento» de Portugal, deve pelo menos merecer a distinção entre o que se está a avaliar: Portugal ou o «Novo Portugal». É que, nessa avaliação, a média ou a mediana acabam por indicar muito pouco - pois, podemos estar perante a situação em que a refeição média de duas pessoas foi de meio-frango quando de facto uma delas comeu um frango inteiro e a outra ficou com fome porque não comeu nada.

Feitas essas observações, algo a que António Barreto não pôde avaliar no seu trabalho, olhemos para Portugal - não para «o Novo Portugal», até porque esse pode estar hoje aqui e amanhã noutro país qualquer, deixando-nos «esqueletos» que nem sabemos colocar a funcionar. Olhemos para o Portugal cuja arquitectura o faz preservar-se atrasado e olhemos para os portugueses que têm de pagar a Crise - para uma Crise cujos beneficiários terão sido muito mais os habitantes do Novo Portugal do que os habitantes de Portugal, os portugueses.

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