Um Estado omnipotente e omnipresente, um Estado forte, é um Estado que não só acaba por auto-construir os seus pés em barro (porque gera um Povo pobre e incapaz de agir) como se auto-construiu a si-próprio com uma estrutura-de-barro, isto é uma estrutura que facilmente pode CAIR - porque facilmente tomável por «grupos de interesse», inclusive máfias e maçonarias, porque facilmente tomável por «estrangeiros», e, facilmente susceptível à implosão.
A «lógica» subentendida é muito simples: se a «cabeça» é toda-poderosa num dado corpo, basta tomar ou substituir essa cabeça para que o corpo seja tomado.
O mais recente exemplo de um «Estado forte» foi o da URSS, ou é o de Cuba, ainda hoje; o primeiro já implodiu e o segundo irá implodir, e ambos conduziram os seus Povos à mais extrema miséria e «incapacidade de agir».
Um dos mais antigos exemplo, foi o do Império Romano - a sua implosão demorou cerca de dois séculos a acontecer. São séculos de contínua decadência, até «o Conhecimento» é perdido, um dos últimos Imperadores do Império já era analfabeto, algo que se tornará comum no pós-queda do Império por toda a Europa ex-Romana. Este é o resultado de poder-absoluto.
Por oposição, e ainda que se apresente como um Estado forte, o Estado americano é um Estado fraco - um Estado no qual o Presidente da República excepcionalmente consegue atingir, no fim do respectivo mandato, a fasquia dos 35 a 40% de aprovações das suas Iniciativas; ou seja, é um Presidente «acondicionado».
Historicamente, a República Romana é exemplo de um Estado fraco, aonde o topo da hierarquia do Estado, era dividida por dois cônsules eleitos anualmente (em geral, não susceptíveis de se proporem a nova eleição) e os Comandantes de Exército eram eleitos pelo Congresso. Estado mais fraco que este é hoje inimaginável.
Aparentemente, o que acaba de ser dito, pode parecer um contra-senso: como é que «a força» se estrutura sobre a «fraqueza» - já que ninguém duvida que o Estado «acondicionado» dos EUA e o não-Estado da República Romana representam de facto Estados «fortíssimos».
De facto, o que se disso não constitui contra-senso, quer porque fazer «rolar» uma cabeça é sempre muito mais simples que dominar milhões de cabeças, ainda que cada uma delas tenha menos «força» que aquela cabeça única, e, porque a força de um País não está propriamente na Cabeça, mas na associação entre o Povo e o «seu» Estado.
Quanto mais um Estado se torna omnipotente e omnipresente mais esmaga e transforma o respectivo Povo numa multidão de «incapazes de agir». Em certo sentido, dir-se-ia que um tal Estado como que domestica (biologicamente) o seu Povo: quem é «serviçal» é protegido e ascende socialmente, quem não o é, é eliminado ou deixado a si-mesmo num mundo aonde para todos os efeitos é o Estado que manda. Tal Povo torna-se incapaz de reacção, por mais abjecto que seja o esmagamento desse Povo pelo Estado.
Como é logicamente evidente, e a História dá muitos exemplos empíricos de tal ter acontecido, um País nessa condições facilmente cai nas mãos de estrangeiros e de interesses «estranhos», continuando o respectivo Povo a «servi-los» tão fielmente quanto possível, do mesmo modo que já antes «servia» os seus dirigentes «naturais».
Portugal é igualmente um exemplo de um País com um Estado fortíssimo - um Estado que está em tudo-e-todas (omnipresente) e faz o que quer e lhe apetece sem possibilidade de ser responsabilizado (omnipotente); mais forte que isso é impossível. Mas, paralelamente o Povo é miserável (face aos padrões europeus, pobre face aos chineses e rico face à África sub-sariana) e, agora, iletrado pelas novas-oportunidades e certificações - já que em meados do século possuía mais de 50% de analfabetos. É um Povo absolutamente «incapaz de agir» dentro de território nacional - não, que não proteste, mas porque nem a sua voz é ouvida (o Estado controla directamente ou pela subsidiação ou protecção-de-mercado a comunicação social) nem pode fazer absolutamente nada sem que o Estado não lhe caia em cima: subsidiando-o ou não, dizendo como deve ou não fazer e certificando-o, protegendo ou desprotegendo o mercado aonde actua, etc. etc. Até aquilo que noutros países são ONG 's, em Portugal são entidades subsidiadas pelos Estado; até a solidariedade social é intervencionada pelo Estado, a própria Igreja é-o na solidariedade que presta à população e as IPSS não passam de PPP 's.
Portugal é um bom exemplo de um Estado forte e «de barro». Evidentemente, acabou por implodir.
Note-se que tal questão não se coloca no plano da existência de um «bom» ou um «menos bom» Estado. Nem se coloca quanto à qualidade dos seus dirigentes. Trata-se de uma questão que se coloca puramente no plano conceptual - uma forma-de-organização -, já que é ela-própria que irá gerar o seu resultado: crescente fortalecimento do Estado (omnipresença e omnipotência) e crescente esmagamento e «incapacidade de agir» do Povo, aumentando assim significativamente a probabilidade de acontecerem Erros e, de tais Erros, possuírem dimensões gigantescas, capazes de só por si levarem à implosão de um País (Estado e Povo).
No livro recentemente publicado por George Friedman: Os Próximos 100 anos, diz Friedman que a preocupação dos EUA no século XXI não será ganhar «guerras». Com a distância abissal que existe entre os EUA, em absolutamente todos os domínios, em relação aos outros Países, bastar-lhe-á provocar as necessárias confusões para que os seus potenciais opositores não consigam fazer coligações contra Si. Um dos exemplos que dá, é a confusão que lançou entre os árabes com a invasão do Iraque: «agora, matam-se uns aos outros», conclui ele.
Não que esteja de acordo em tudo com a perspectiva do Friedman, mas de facto para os EUA é muito mais fácil lidar com Estados «fortes» do que com Países «fortes». Um Estado «forte» é facílimo de controlar, mais ainda quando se possui força e dinheiro; um País «forte», é praticamente impossível de controlar.
Por isso, e isso não passa de um fraca opinião, os EUA estarão muito mais interessados na expansão da democracia não-liberal - como acontece em Portugal e, em geral, na Europa continental - do que um tipo-de-democracia semelhante à sua: uma democracia liberal. É a democracia liberal que torna os EUA um País fortíssimo - foi esse tipo de democracia que tornou os EUA um País riquíssimo e desenvolvido (e, não o contrário, como muitos dizem!).
Ainda sob esse ponto de vista Friedman tem razão, ainda que a sua análise me pareça muito simplista e «linear». Friedman nem aborda a questão da organização dos Estados e Povos, da organização dos Países, como fonte de mudança do Poder no planeta. De facto, a história de cada Povo é tão forte que o risco de errar é relativamente baixo ao admitir que «o amanhã» de cada País não será muito diferente de o seu «passado» - ou seja, que os Povos têm dificuldade em aprender e a corrigir-se.
Todavia, tal pode não acontecer nos próximos 100 anos: o que seria admitir que a democracia liberal poderia vir a surgir em países de origem não anglo-saxónica - único lugar aonde até agora existe.
Por exemplo, na Índia - apesar de tudo um País de influência anglo-saxónica; se a Índia conseguir implementar e preservar uma democracia liberal, rapidamente a Índia poderá vir a ultrapassar os EUA. Por outro lado, não me parece linear que a China não se desloque também para a democracia liberal, inclusive porque esta é uma forma inteligente de preservar a sua Unidade - na impossibilidade da qual Friedman nega a possibilidade da China se tornar uma super-potência.
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