quinta-feira, 1 de março de 2012

Eu não vivi acima das minhas possibilidades

"Eu não vivi acima das minhas possibilidades", foi o que disse um conhecido filósofo, comentador-político no programa semanal em que participa na SIC, como resposta a: como vivemos acima das nossas possibilidades, temos agora que nos ajustar a elas. E, acrescentou, mais ou menos o seguinte: as decisões tomadas pelas pessoas há 20 anos, 15 ou 1o anos foram racionais, por exemplo elas compraram casa porque uma renda era mais cara que a amortização para compra de uma casa. Infelizmente, a réplica foi «fraca»: "a sociedade é que viveu acima das suas possibilidades" - como se, apesar das pessoas terem sido racionais, a sociedade não o tivesse sido!
É mais que evidente que se o País está numa Crise despoletada por uma Dívida do Estado (que de «soberana» é o que de menos tem uma dívida), é porque: o Estado viveu acima das suas possibilidades - «o Estado viveu...», não foi cada uma das pessoas. Todavia, num país em que o Estado é omnipotente e omnipresente - infelizmente, não é omnisciente, ainda que muitos acreditem nisso -, as decisões racionais das pessoas contém em si-mesmo a racionalidade «forjada» pelo Estado. Ou seja, as pessoas foram levadas a tomar decisões racionais cuja racionalidade não estava na Realidade (social) em si-mesma mas numa Realidade-ficcional «forjada» pelo Estado.
No exemplo acima dado: as rendas são mais caras que a amortização da compra de uma casa - as rendas são mais caras porque o Estado é que passou a determinar as rendas, tornou-as tão baratas, tão baratas ao ponto de nem terem de ser pagas, que para os donos das casas foi racional a decisão de «deixar cair a casa de podre»; paralelamente, o Estado utilizou o dinheiro dos contribuintes para promover taxas de juro baixas e isenção de impostos para quem construísse ou comprasse casa. Racionalmente o que daí «saiu» foi: explosão de novas construções e degradação do património imobiliário, e o Estado criou a si-mesmo condições de auto-endividamente crescente. Ou seja, o Estado seguiu um caminho impossível de ser sustentado, porque sustentado com o dinheiro dos contribuintes ao qual ele queria dar novos destinos, como tal foi «deixando cair» a «sua racionalidade inicial». Mas, a asneira estava feita: o património imobiliário estava destruído, até aquele que tinha acabado de ser construído, o país estava cheio de casas impossíveis de serem habitadas (porque simplesmente não há população para isso), os bancos estavam cheios de crédito, as construtoras agigantadas mas cheias de dívidas, etc. Ou seja, quando ficou claro para os credores do Estado que este criara um Realidadeque era ficcional porque nunca poderia sustentar o próprio crédito mobilizado para a criar, a Crise surgiu: «mas, tu não vais poder pagar o que te emprestamos!». Era tarde, para os próprios credores - a estrutura societária que se criou e desenvolveu no país, racionalmente sem dúvida, para «acompanhar» a racionalidade do Estado, de repente ficou «sem utilidade», sem a utilidade que provinha da própria racionalidade «forjada» -ficcionada - pelo Estado. Foi evidentemente o colapso: empresas falidas e empregados na rua, como tal pessoas incapazes de satisfazer os compromissos assumidos anos atrás quando racionalmente tomaram a decisão de os assumir - por arrastamento, bancos em crise, investimentos em imobiliária que desvalorizaram em vez de valorizarem, dezenas de milhares de casas por vender, etc. Um castelo-de-cartas que se desmorona - mas, de facto desde o «início» que sempre se esteve numa castelo-de-cartas, ainda que alguns chamassem a isso «desenvolvimento» e «fonte de emprego» e a larga maioria nunca dessa ficção se tivesse apercebido.
Ou seja, é certo que as pessoas foram racionais nas suas decisões, mas isso não significa que, porque racionais, não são «Culpadas» - culpadas, no sentido de que não tenham «de pagar» as suas dívidas e, também, que não tenham de pagar as dívidas assumidas pelo Estado ainda que decididas por este racionalmente. Claro que podem «não pagar» - e, com certeza será o que irá acontecer por impossibilidade «real» de o fazer -, mas as consequências serão desastrosas, se é que «mais desastroso» é possível.
Isto passou-se assim «por todo» o país e «em tudo» por aonde o Estado se andou a meter a «criar racionalidade». Como em Portugal, o Estado é omnipresente (está em tudo e em todas) e omnipotente (faz o que quer e lhe apetece), as pessoas foram arrastados por essa racionalidade e o país desenvolveu-se sob-e-segundo essa racionalidade Estatal. A Crise não vem mostrar que essa racionalidade esteja errada, ela está certíssima no mundo ficcional (e racional) criado pelo próprio Estado - «há racionalidade» nas decisões tomadas e comportamentos assumidos; o que a Crise vem mostrar é que «a Realidade» não coincide com a Realidade ficcional, forjada e «vendida» pelo Estado aos credores e aos cidadãos a quem andou a acondicionar as respectivas decisões.
É evidente, e nisso está subentendida a questão: «eu não vivi acima das minhas possibilidades» e«as minhas decisões foram racionais», que a resposta do Estado à Crise está a responsabilizar, e a fazer-pagar, a Crise por aqueles que dela não tiveram Culpa alguma - aliás, nem dela beneficiaram! Por outro lado, está cada vez mais evidente que a resposta à Crise está racionalmente a ser um contra-senso: não se pode «matar» quem pode tirar o país da Crise!
Mas, agora nem é isto que está em causa. O que está em causa é que, se tomei as minhas decisões racionalmente, quem as não tomou, ou se tomou, quem é o causador de tal Crise?
É evidente que a Crise foi criada pelo Estado - mas, foram os portugueses que o permitiram, quando deixaram, e até quiseram, que o Estado «tomasse conta» deles. Ele fê-lo; evidentemente, fê-lo com a «sua racionalidade» - e «a racionalidade» do Estado, como a de qualquer sistema (inclusive social), acaba sempre por ser «a racionalidade» de quem o gere-e-controla. Ou seja, há sempre responsáveis e beneficiários dessa «racionalidade», não pode deixar de havê-lo.
O problema é que se desejou e se quis que essa «racionalidade», a do Estado, envolvesse todos os portugueses e envolvesse todos os seus comportamentos sociais (e até pessoais), isto é desejou-se e quis-se que o Estado, com a sua racionalidade, fosse omnipotente e omnipresente à vida de cada um dos portugueses - diria que a ASEA é símbolo maior desse Estado; o resultado está aí. É que: omnipotência e omnipresença só em Deus se associam à omnisciência.
Como resultado, estamos todos num enorme «buraco», do qual temos de sair para aí não ficarmos já enterrados. Todavia, a sua «abertura» teve interessados e beneficiários, a sua «abertura» foi racional - ainda que possivelmente tal racionalidade pudesse passar por «as dívidas nunca se pagam, foi isso que aprendi em economia» ou «os outros é que vão pagar».

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