sexta-feira, 16 de março de 2012

Como a arquitectura societária portuguesa amarra Portugal ao atraso e gerou a Crise (III)

«Desenvolvimento» e «atraso» - como civilizado e bárbaro - sempre foram conceitos manuseados pelos Povos para se auto-definirem a si-mesmo face aos outros ou vice-versa. O seu uso não é pois estranho, ainda que os critérios para a sua definição sejam diversos e não uniformes.

Uma primeira dificuldade diz respeito àquilo para que se aponta quando nos referimos a «desenvolvimento». Aponta-se ao Povo, às pessoas em concreto, ou ao respectivo Estado?

Por exemplo, o Povo judeu é, quanto a mim, o Povo mais «desenvolvido» do mundo, é-o há séculos, porque em média os judeus possuem altos padrões-de-vida quer a nível material como intelectual. Como um amigo meu dizia: todos os judeus sabem ler-e-escrever desde 2000 anos antes da nossa era, afim de poderem ler «a sua» Bíblia. Todavia, os judeus durante séculos não possuíam Estado nem território, viviam e vivem no território de «os outros», e só recentemente possuem um Estado, o Estado de Israel no qual vive uma pequeníssima percentagem da comunidade judaica. Trata-se de uma Cultura forte e rica.
Todavia, se falássemos da Rússia e, depois, da URSS,(ou ainda da China), estaríamos a tratar de um Povo que em média vive miseravelmente ainda que o seu Estado fosse forte e rico.

Entre essas duas situações, podemos considerar os EUA, mais próximo da comunidade judaica, e a Alemanha pós-Bismarck, mais próxima da Rússia. Enquanto os EUA são um território «ocupado» e «continuamente ocupado» por Povos de todo o mundo cujo Estado se esforça para que cada cidadão possa preservar a sua Liberdade «de ser e de estar», intervindo o menos possível na sua vida, na Alemanha «o exército cavalga o Povo» - com se diz -, ainda que «o cavalgasse» mais ontem que hoje.
São elevadíssimos os padrões-de-vida das populações americana e alemãs e, simultaneamente, os respectivos Estados são fortes, ainda que o sejam de forma diferente: na Alemanha a força do Estado sustenta-se no servilismo ao Estado do povo alemão, enquanto nos EUA a força do Estado depende da independência do cidadão americano relativamente ao Estado.

Todavia, apesar das diferenças entre todos estes exemplos, todas elas possuem em comum o facto das respectivas elites e Povo estarem unidos por um bem-comum: a Nação (Estado e Povo), pelo que a acção das elites (eleitas ou não), ainda que possa ser desastrosa, é em geral tomada tendo em vista «o Bem» da Nação. Ou seja, excepcionalmente a corrupção tem aqui lugar, e, quando acontece, os sistemas judiciais funcionam com eficácia.

Há pois um terceiro tipo de Países: aquele aonde o Estado foi tomado por uma elite a-nacionalista - quer o tenha tomado por eleições (como é evidente segundo sistemas eleitorais devidamente condicionados) ou por algum tipo de sistema ditatorial.
Nestes Países, a que corresponde uma dado tipo de Estado, o Estado e o respectivo Povo encontram-se em lados relativamente opostos, já que o Estado, e as elites que dele tomaram posse, o que pretendem é servir-se desse poder para explorarem esse Povo em seu benefício.

Uma grande parte dos Países estão nesta situação: as elites «tratam» do seu Povo, através do Estado previamente tomado, mais em seu benefício do que no da Nação (Estado e Povo) - no fundo, como que tratando desse Povo como se trata de uma galinha: trata-se dela para que continue a pôr ovos, nomeadamente trata-se dela para que ponha ovos com crescente produtividade.
Neste tipo de Países, as pessoas do Povo não possuem na prática direito à Humanidade; apenas as pessoas que constituem a elite possuem esse direito. As pessoas do Povo são como que servos do Estado, aí aonde se as elites se acantonam - e, tudo isso, «dentro da Lei».

Enfim, quando se olha muitos dos indicadores que tentam medir o desenvolvimento», muito daquilo que se acaba de apontar, não consegue ser medido. Frequentemente só quando emerge uma Crise é que se tem tendência a olhar retrospectivamente para se descobrir o que causou tal Crise.

Mesmo os «Países servis», aqueles nos quais o Estado olha e trata os seus cidadãos como servos de Si-próprio, excepcionalmente ocorrerão manifestações se as elites gerirem o seu poder sobre os servos com o necessário cuidado - aliás, com excepção de alguns «espertalhões», servos e elite podem nem se aperceber do carácter servil da inter-Relação que criaram entre elites e Povo. Por exemplo, algumas - algumas - sociedades socialistas, melhor dizendo: ditas socialistas, são exemplo típico deste tipo de inter-relação Estado-Povo; Portugal é disso um bom exemplo: o de um Estado e de uma elite (a-nacionalista) que «tratam de» o Povo português como um dono trata as suas galinhas num galinheiro.

Ora, medir o desenvolvimento - ou atraso - de galinhas é diferente de medir o desenvolvimento - ou atraso - de Povos, de seres que são Humanos (e não «animais»). Infelizmente, o que muitas vezes acontece é que se mede o desenvolvimento - ou atraso - de seres que são Humanos, não «enquanto seres-humanos», mas como se tratassem «de animais».
De algum modo, ainda que não tenha sido essa a intenção, foi isso que António Barreto acabou por fazer no seu programa sobre o estado de desenvolvimento de Portugal - e, esta Crise só o vem confirmar.

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