Uma das consequências-potenciais mais graves da intervenção do Estado na sociedade é que, ao introduzir-se como Intermediário na Relação entre as pessoas, acabe por destruir a necessidade dessa Relação e, deste modo, acabe por destruir a própria possibilidade dessa inter-Relação. Ou seja, uma das consequências-potenciais mais graves da Intermediação do Estado nas relações Humanas, é a destruição de sua própria Humanidade, manifesta na inter-Relação que «deve acontecer» entre os seres-humanos - afinal, os cidadãos passam a lidar com uma «máquina», o Estado, em vez de continuarem a lidar entre si.
Por exemplo, quando o Estado «toma conta» da Educação - construindo escolas, contratando professores, definindo programas educativos e horários lectivos, etc., e, impondo certificados-de-competência -, ainda por cima usando para isso os recursos de «o Trabalho» dos pais dos alunos, de facto o Estado está a potenciar a destruição da inter-Relação entre pais e filhos, entre pais e professores, entre pais-professores-e-empregadores, etc. e, assim, está a desresponsabilizar os pais das suas obrigações para com os filhos. «Destruição» (de Relações), que se completa quando simultaneamente o Estado «toma conta» da Saúde - por isso, os filhos «respondem» ao abandono educativo «esquecendo-se dos pais nos hospitais»; o que é igualmente uma resposta «lógica»: já que cabe ao Estado «tratar da Saúde e da Velhice» - pelo que até retira aos cidadãos, pais e filhos, todas as possibilidades «materiais» de recorrerem a terceiros (que não o Estado), ao extorquir-lhes toda a riqueza que criaram ao longa da sua vida (impedindo até que fizessem poupanças). No «fim», até lhes pagam o caixão, bem... se não for muito caro!
Note-se que o problema não está «no papel» do Estado; o problema está na forma como tal papel é executado.
Se o Estado é quem «toma conta» da Educação dos filhos, em todos os seus aspectos, o que fica realmente para os pais? Nada.
De facto, «fica tudo» - é isso que a realidade nos mostra, pois os problemas criados com tal tipo de intervenção são tantos, que hoje há mais des-Educação pública do que Educação pública.
O Estado de facto não consegue «tomar conta» da Educação dos «meus» filhos nem dos «seus» filhos. Por isso, assistimos todos-os-dias ao remendar do sistema educativo para tapar os buracos que ele-próprio criou ao tirar os pais da relação de educação que deve existir entre pais e filhos e professores. A incompetência, a irresponsabilidade grassam pelas escollas, públicas e não-públicas - já que estas não são privadas, são escolas para-públicas, são parcerias público-privadas, fazem o que o Estado quer. Como pode um pai exigir se os professores não são pagos directamente por si (ainda que o sejam indirectamente) e, por isso, não são por si escolhidos.
Dir-se-á: mas a escola pública foi uma conquista da Civilização! Bem..., os países do norte da Europa, aonde a Civilização é já «velha», não precisaram da educação pública para se alfabetizarem e «serem desenvolvidos e cultos». Ainda hoje, por todos os países do norte da Europa, ao lado das escolas públicas há outros tipos de escolas: privadas, religiosas, comunitárias, cooperativas, etc., em geral seguindo programas educativos diversos. Aliás, nesses países as «melhores» escolas não são as que seguem os padrões públicos - até em França, aonde a uniformidade pública é padrão, as «melhores» escolas são as que não seguem o padrão público. E, antes da UE pretender «certificar» tudo-e-todos, nem as certificações eram muito importantes, já que o que importa é «saber» ou «não saber».
Por outro lado, o próprio Estado poderia ter Intervido de outra maneira - não potenciando a «destruição» das relações entre pais, alunos e professores, mas potenciando-as. Por exemplo, entregando aos pais as propinas para pagarem a escola aos seus filhos (ou, não lhe tirando tal valor pelos Impostos, para depois lho entregar de novo - cá está, colocando-se como Intermediário numa Relação) e permitindo às próprias escolas públicas a necessária autonomia para que estas pudessem auto-ajustar-se às solicitações daqueles.
Enfim, e é isso que nos interessa «agora», o Estado, ao Intermediar e ao impedir que a sua Intermediação possa não acontecer (quer por via da Lei-e-Regulamentos como pela intensidade de extracção da Riqueza criada por cada um), acaba por «destruir» a inter-Relação que deveria desenvolver-se entre as pessoas.
Se «projectarem» tal Relacionamento para o sistema de Saúde, para o sistema de Reformas, para o sistema de Emprego-e-Desemprego, para o sistema de Segurança, para o sistema de ocupação do espaço territorial, para... - em especial, naquelas sociedades aonde o Estado tende a Intervir em tudo-e-todos e a Intervir «ao detalhe e pormenor» em tudo-e-todas -, pouco acaba por restar que se inscreva na Necessidade das pessoas se inter-Relacionarem entre si-próprias (deve sobrar o futebol e o sexo).
Se, em tudo o Estado está presente, operando como árbitro e como jogador, «para que esforçar-me em ter uma inter-Relação com o meu vizinho?». Mas mais: em que medida «é necessário», «é importante» ou, mesmo, «se consegue preservar uma tal inter-Relação»? Em que medida é importante e necessário «para mim» preservar a minha própria Família? O Estado toma conta de tudo-e-todos - é o Pai e a Mãe, e o Diabo. No limite, para além de «o futebol e sexo», em que medida é importante «para mim» a Nação em si-mesma, enquanto algo que está «para além de» o Estado (que se diz meu «representante» face a mim-mesmo e a todos ou «outros»)?
Numa tal situação, sendo evidente que tal situação varia conforme a intensidade e grau-de-envolvimento com que o Estado realiza essa Intermediação, a única inter-Relação necessário - e, por isso, importante - é «a Relação» com o Estado.
Todavia, as consequência dessa Intermediação são ainda mais profundas e Fundamentais.
Se com o vizinho ocorre efectivamente uma Relação que se exprime por «uma inter-Relação entre pares», com o Estado não há propriamente uma inter-Relação; há apenas uma Relação: há uma Relação «de obediência e sub-serviência». Com o Estado acaba por haver, e por se desenvolver com crescente intensidade e crescente abrangência, uma Relação servil - não, uma inter-Relação «de iguais» e, como tal, não uma inter-Relação que, por si, desenvolva «a igualdade na inter-Relação». Em síntese, poder-se-ia dizer que, ao destruir «o Mercado»: aí aonde as pessoas e instituições se inter-Relacionam entre si trocando bens-e-serviços, cultura, amizade, solidariedade, emoções, etc. «como Iguais», como pares, o Estado destrói a Rede Social que une as pessoas num Todo, destruindo inclusive aquilo que o justifica como Estado, elevando-se a uma dimensão meta-Humana (não Humana) e obrigando-o a auto-Fundamentar a si-mesmo - numa auto-Fundamentação aonde as pessoas, a sua Existência, já não servem para o justifica.
O Estado comunista constitui o exemplo mais acabado deste tipo de Estado; os Estados fascistas não são muito diferentes daquele, e as democracias não-liberais, como a portuguesa (ainda que abusivamente, ou por incompetência, se auto-denomine de liberal), não lhe ficam distantes.
Ou seja, a intervenção do Estado, sempre que desenvolve o seu papel como Intermediário das inter-Relações entre as pessoas, acaba por criar a possibilidade da destruição dessas inter-Relações (conduzindo-as exclusivamente para o socialmente supérfluo), e, simultaneamente, acaba por induzir à Irresponsabilidade social, à irresponsabilidade de cada um perante o próximo e, em geral, perante o colectivo - afinal: o Estado que resolva!
O que se passa com «o abandono» dos idosos em Portugal é um bom exemplo disso. Como a vizinhança deixou de existir, o idoso morre sem se dar conta disso; como tal, «agora» tem de ser a polícia (o Intermediário) a tratar do assunto.
E, concluindo: como o Estado não é omnisciente, ainda que possa ser omnipresente e omnipotente, aliás sem Rede Social até é imediatista (de vistas curtas) e irresponsável, ou seja até é relativamente acéfalo, o Estado acaba por criar um espaço social aonde não só a probabilidade de Erro é elevadíssima como tal «Erro» pode ser gigantesco, porque envolvendo nele todos os recursos de uma sociedade e porque fazendo-a sofrer consequências vultuosos, no limite capazes de a auto-destruirem.
Foi o que aconteceu a Portugal e aos portugueses.
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