quarta-feira, 13 de junho de 2012

É um prazer ouvir pessoas inteligentes

Na RTP1, no programa de Maria Elisa desta 2º feira, pôde ouvir-se António Borges, Victor Bento e António Vitorino - pessoas inteligentes, dando a sua opinião sobre o País.
O que mais me admirou desse debate, se é que de debate se tratou, é que António Borges, que parece conhecer a situação melhor que alguém, afirmou que a economia portuguesa está mesmo a reestruturar-se para melhor, e mais rapidamente do que se esperava. Isso é muito bom; sinceramente, que não esperava. Mas, infelizmente, ele não apresentou números. Pelo que afirmou, parece «basear-se» na interpretação das «baixas» taxas de juro dos empréstimos obtidos pelo País nos últimos tempos, no interesse dos estrangeiros em comprar as empresas públicas, ou o que resta delas, e no aumento das exportações e diminuição das importações. Parece-me muitíssimo pouco - muitíssimo pouco mesmo, para poder concluir que as medidas estão a resultar.
Se, afinal, pouco coisa ou nada se fez que não fosse restringir a despesa do Estado - por falta de dinheiro (o dos impostos e porque o mercado não empresta ou só empresta a juros elevados), consequentemente empurrando a economia por inerência intrínseca a essa falta de dinheiro (de cujo resultado são as falências e o aumento das exportações) -, como as coisas estão a «ir bem»? Ou seja, aquilo que, de estrutural, deveria estar a acontecer, que como é evidente deveria estar a acontecer no Estado e no seu aparelho, não aparece naquilo que António Borges apontou como sinal de que as coisas correm bem e depressa. É evidente que a economia está a reagir, e a sociedade civil também - mas, isso não podia deixar de acontecer face à austeridade a que o Estado foi submetido por falta de dinheiro (e, não por ter «outra« Vontade); quem não reage (para além de não poder pagar por falta de dinheiro) é o Estado, nem está a fazer o esforço necessário nesse sentido. As causas estruturais e culturais que conduziram à Crise preservam-se: haja dinheiro, e o Estado volta ao mesmo.

A este respeito é interessante a intervenção de Cintra na entrega do Prémio Pessoa. Em síntese, ele diz que a Cultura - a Criação - precisa de subsídios a fundo perdido.
Imaginemos Cintra, na rua, a dirigir-se a alguém: psiu, psiu, o Sr. não se importa de me dar dinheiro a fundo perdido, para eu poder Criar uma peça de teatro? É fácil imaginar a resposta: vai trabalhar homem, que eu também trabalho, ou: "se vai fazer uma peça, deverá poder recuperar o investimento nos bilhetes; porque está a pedir dinheiro a fundo perdido?". Réplica de Cintra: "é que a minha peça não interessa a muito gente, é que essa gente não tem cultura, o investimento não é recuperável". Aí, o potencial dador abre a boca de espanto: "eu tenho de trabalhar a contento da sociedade que compra o meu trabalho, mesmo que essa sociedade seja sem cultura; só assim ganho a minha vida, e você pede-me o meu dinheiro, ganho com o meu trabalho, frequentemente de forma penosa e monótona, ainda por cima a fundo perdido. Como tem coragem? Como tem coragem de me pedir dinheiro nas condições em que quer?

De facto, como tem coragem? Como alguém tem coragem de pedir a outra pessoa, que trabalha frequentemente de forma penosa, para lhe dar dinheiro a fundo perdido?
Bem..., isso é imaginação: e má imaginação. O que se passa é o seguinte: o Estado substitui-se a Cintra - faz uma Lei a obrigar, aquele potencial dador, a entrega-lhe o seu dinheiro, ganho a fazer trabalho socialmente-útil (aliás, a entregar muito mais do que aquele que seria necessário a Cintra) e manda a «polícia», para que não haja dúvidas quanto a tal obrigatoriedade. Seguidamente, o Estado dá esse dinheiro, a fundo perdido, a Cintra - que, ainda chateado, acha que é muito pouco para o desenvolvimento da Cultura Portuguesa.

Foram estas pessoas, e, naturalmente, as empresas e, ainda naturalmente, todos os que puderam (ONG´s, IPSS´s, Igreja, etc.) a correr ao Estado a pedir a fundo-perdido - afinal, é muito mais fácil que convencer as pessoas que, sendo a sua actividade é útil (bastaria isso, nem precisaria de ser utilíssima), estas lhes podiam confiar o seu dinheiro (ou, comprar os seus utilíssimos serviços). O Estado que temos é esse Estado, as elites que temos são essas: a «polícia» cobra, eles não precisam de convencer «quem paga» - ora, esse Estado está intacto, nem em reestruturação está; como diz António Borges que as coisas estão a mudar?

Não é por acaso que tivemos Salazar: o Estado está aí para intermediar as relações entra as  elites-subsidiadas e os que pagam. Nesse tempo, Cintra não estava no seio das elites-subsidiadas - mas, o sistema é o mesmo: só muda quem compõe as elites-subsidiadas.

Para já não falar do Estado (que não mudou, como inclusive acho que António Borges gostaria que mudasse), enquanto as pessoas não tiverem VERGONHA de pedir a fundo-perdido, nada mudará!


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